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Turistas franceses devem evitar zonas de risco como pede governo?

Por Alfredo Valladão

Na França tudo o que acontece vira polêmica política. Poucos minutos depois de anunciado resgate de dois reféns franceses no sul do Burkina Fasso por um comando da Marinha francesa, a mídia em conjunto começou a bater no governo. Não foi o fato de que dois soldados de elite do comando Hubert morreram na operação.

Os militares franceses são dos poucos no mundo capazes de realizar esse tipo de operação especial super-sofisticada, a milhares de quilômetros do território nacional. E a população está acostumada a respeitar e aceitar os riscos daqueles que dão a vida pela pátria.

A controvérsia vem da declaração do ministro das Relações Exteriores Jean-Yves Le Drian pedindo que os turistas franceses evitem “as zonas onde existem riscos importantes para evitar sequestros e o sacrifício dos nossos soldados”. Aliás, os próprios reféns liberados admitiram que deveriam ter seguido as recomendações das autoridades e evitar ir passar férias num parque zoológico na fronteira entre o Benin e o Burkina Fasso.

Parece bom senso, mas imediatamente surgiram críticas ferozes. O direito à livre circulação dos cidadãos é sagrado num estado de direito e portanto o governo não pode decidir o destino das viagens de seus nacionais.

Além do mais, dizem os críticos, os mapas das regiões perigosas no site das Relações Exteriores não são claros. Difícil diferenciar as “zonas vermelhas” “formalmente desaconselhadas” e as “zonas laranja” “desaconselhadas salvo por motivos imperativos”. O parque zoológico está situado no meio dessas classificações.

Ação do governo

Só que quando acontece um drama, todo mundo clama por uma intervenção para libertar os reféns, ou então por uma negociação com os sequestradores (bandidos ou grupos terroristas) que envolvem o pagamento – quase sempre escondido – de uma bolada de dinheiro.

A exigência é que o Estado – portanto a coletividade nacional – assuma a irresponsabilidade – ou a falta de sorte – de alguns indivíduos. Se o governo não intervém ou não negocia, é considerado desalmado e pior: incapaz de exercer o dever de proteção aos seus cidadãos.

Mas se para prevenir esse tipo de situação, as autoridades desaconselham viagens arriscadas para proteger a vida dos soldados e dos possíveis sequestrados, então são acusadas de ferir o direito das pessoas de ir e vir.

Entre a cruz e a caldeirinha, não há saída. E é assim que são assassinados dois membros do melhor comando especial das Forças Armadas francesas que se sacrificaram para salvar pessoas que queriam fotografar elefantes numa região cada vez mais infestada de grupos terroristas islamistas.

Claro, esses dramas são ainda mais difíceis de administrar num ambiente ultramidiático. Qualquer sequestro na região do Sahel africano vira manchete imediata. Sobretudo quando se trata de um cidadão de um país rico ocidental e democrático.

Preço a pagar

O resultado é que o preço – político e financeiro – a ser pago pelo resgate sobe de maneira brutal, alimentando o caixa dos grupos terroristas. E quanto mais um governo aceita pagar, mais vale a pena sequestrar.

Outra dificuldade é que Paris, Londres, Berlim ou Washington não podem simplesmente anunciar que não se deve viajar para os países da África ocidental. Isso poderia provocar rapidamente crises econômicas nessa região e até desestabilizações políticas graves. Prato cheio para os terroristas islâmicos.

As famosas “zonas vermelhas” ou “laranjas” devem ser desenhadas com muito cuidado e formuladas com muita diplomacia para não provocar tais catástrofes ou roturas diplomáticas com os Estados da região. Sobretudo que a França mantém importante dispositivo militar no Sahel para combater o terrorismo.

A tensão entre razão de Estado e razão individual das pessoas não é de hoje. Numa democracia, o equilíbrio é sempre precário. Sobretudo com mídia e redes sociais poderosas e livres. Resta uma questão de fundo: como aceitar a morte brutal de jovens comandos de elite – treinados intensamente para lutar e, se for necessário, morrer numa guerra – só para trazer de volta dois compatriotas levianos. A responsabilidade individual não é só para os soldados.

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