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UE tem problema de comunicação e não desperta paixões, diz brasileira especialista em política europeia

Em crise, a União Europeia (UE) se prepara para uma nova eleição do Parlamento. Cerca de 150 dos 400 milhões de pessoas devem ir às urnas na próxima semana para escolher os novos ocupantes das 731 cadeiras da casa. Mais uma vez, questões nacionais devem se apresentar por trás de cada voto. Não é novidade que os europeus usam essa votação para mandar recados aos políticos dos seus países. Mas talvez isso se explique pelo fato de até hoje não entenderem bem o funcionamento da da União Europeia e como o que é decidido em Bruxelas afeta a sua vida. 

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres 

Esse é um dos temas sobre o qual se debruça a brasileira Tatiana Coutto, professora do Departamento de Estudos Políticos e Internacionais da Universidade de Warwick, na Inglaterra. Para ela, a UE tem um problema de comunicação e não consegue despertar paixões, o que, nos tempos de hoje, é muito grave.

Tatiana explica que a onda populista mundo afora tem sido movida por votos carregados de emoções. Assim teriam sido eleitos Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil. E não é só isso: a União Europeia acaba engolida pelo jogo político de cada país. Quando aprova uma medida popular, com impacto positivo, os políticos dos Estados-membros muitas vezes se apropriam delas. Mas, se são obrigados a adotar medidas que consideram negativas, atribuem a culpa ao bloco.

A professora reconhece que não é fácil entender o que acontece em Bruxelas, a sede da UE, de onde saem as principais diretrizes europeias. Até porque não há como resolver questões nacionais específicas. "A União Europeia não é um Estado, e não pode melhorar a educação de um país, por exemplo. É tudo mais complicado. Nem tem essa competência”, afirma. Tatiana lembra que o orçamento da União Europeia corresponde a 1% do orçamento da Alemanha, seu associado mais rico.

Pela primeira vez em 40 anos de eleições para o Parlamento Europeu, os dois maiores grupos politicos da casa não deverão mais ter a maioria dos assentos. Isso significa que terão de buscar apoios de partidos menores para tomar decisões. Significa também que legendas, antes sem grande peso, ganharão poder nessa nova gestão de 5 anos.

Queda do Muro de Berlim

Nascida no Rio de Janeiro, Tatiana apaixonou-se pelas questões europeias ainda criança, ao observar o pai jornalista narrar os acontecimentos efervescentes na região, como a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

Até se tornar especialista em política europeia, formou-se em biologia e administração. Os estudos da biologia direcionaram em boa medida suas pesquisas em política externa para a questão ambiental. Saiu do Brasil para fazer um doutorado pela Capes no European University Institute, que é administrado pela União Europeia.

A professora destaca que a questão ambiental deve tratar de aumentar ainda mais a distância entre o Brasil e a Europa. Isso porque, segundo ela, medidas que vêm sendo anunciadas e adotadas pelo governo brasileiro vão na contramão do que tem sido defendido pelos europeus.

Uma onda ambientalista tem varrido a Europa e mobilizado jovens de todos os países. Tatiana afirma que esse deve ser um dos principais pontos de fricção entre o Brasil e a UE, que não terá problemas para usar medidas não tarifárias contra as exportações brasileiras se considerar que o país está desmatando a Amazônia, liberando o uso de pesticidas, por exemplo.

“Para alguns temas, como clima, ambiente e segurança alimentar, não há direita ou esquerda. Viraram mainstream. Quem vota na Reunião Nacional (RN), a ultradireita na França, também se preocupa com o ambiente. É a comida do seu filho”, disse.

Segundo Tatiana, a questão ambiental tem sido defendida de maneira diferente pela grande maioria dos partidos políticos, mas está presente. "Os cidadãos europeus têm muito mais consciência ambiental do que tinham e não vai ser difícil aplicar restrições”.

No final do ano, a brasileira se muda para Paris, onde inicia na Sciences Po uma nova pesquisa justamente sobre as falhas de comunicação da União Europeia, como é retratada pela mídia e como é percebida pela opinião pública. “A comunicação é sempre muito técnica, muito certinha”, destaca.

Educação no Brasil

Em entrevista à RFI, a professora de Warwick lamentou os cortes de orçamento das universidades brasileiras anunciados pelo ministério da Educação. "Fui fazer meu doutorado na Itália sobre UE, tive uma bolsa da Capes na época, e eu vejo com muita preocupação esse corte no orçamento. Acho que você subestimar completamente o valor que tem você mandar uma pessoa para fora, não só aprender outras técnicas e metodologias, mas também encontrar outras pessoas que têm pontos de vista diferentes. Levar menos alunos para fora e trazer menos professores de fora é realmente muito preocupante", conclui. 

Nascida no Rio de Janeiro, Tatiana apaixonou-se pelas questões europeias ainda criança, ao observar o pai jornalista narrar os acontecimentos efervescentes na região, com a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética. Arquivo Pessoal

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