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Araújo quer esclarecer “percepções equivocadas” da França sobre o Brasil

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O chanceler Ernesto Araujo concedeu uma coletiva de imprensa na embaixada do Brasil em Paris nesta sexta-feira (24). L. Müzell

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, propôs ao chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, aumentar o diálogo entre os dois países para esclarecer os franceses sobre a política ambiental e de direitos humanos do governo de Jair Bolsonaro. Segundo Araújo, há “percepções equivocadas da França e outros países” sobre essas áreas no Brasil.


“Ofereci, e o ministro Le Drian aceitou, de a gente aprofundar o diálogo nesses temas para o lado francês entender melhor como são as nossas políticas ambientais e de direitos humanos hoje. Não foi ele que levantou, fui eu que falei disso, porque sei que são percepções que voam aqui na França”, explicou Araújo.

O ministro encerra nesta sexta-feira (24) três dias de viagem oficial a Paris, onde foi participar da reunião de alto nível da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

“Acho que essa é a única área na qual pode ser interpretada como tendo algum irritante na relação, e queremos mostrar que não é assim”, disse o chanceler.

Oposições na agricultura

A declaração ocorre depois de o Ministério da Agricultura francês divulgar uma nota de oposição à conclusão do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, alegando que Paris “não ratificará nenhum acordo que prejudique os interesses dos agricultores e consumidores franceses, às exigências de qualidade sanitárias dos padrões europeus e aos compromissos ambientais do Acordo de Paris”.

Na véspera, ao comentar sobre o assunto com a imprensa, Araújo havia reafirmado a permanência do Brasil no Acordo do Clima, apesar do “olhar crítico” a respeito de “deficiências” do tratado internacional para limitar o aquecimento global. O chanceler disse que o aumento do número de agrotóxicos autorizados no Brasil, por exemplo, é um dos aspectos que devem ser melhor explicados, para evitar “preocupações”.  Apenas neste ano, 169 novos produtos tóxicos foram licenciados no Brasil, dos quais 26% são proibidos na União Europeia, segundo a organização Greenpeace.

“A percepção aqui na Europa é muito diferente da realidade no Brasil: o território brasileiro ocupado pela agricultura, o tema da qualidade, da produtividade. Parece que, independentemente de questões específicas, o que há é um certo déficit de conhecimento em relação às políticas ambientais e agrícolas brasileiras”, argumentou o ministro, que elogiou o trabalho “estupendo” do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – chamado de “antiministro” pelos ambientalistas.

Relações com a França  

Na conversa com o chanceler francês, ainda foram abordados temas diversos da agenda bilateral, como cooperação de Defesa, parcerias econômicas e aproximação cultural. As negociações sobre o acordo entre a UE e o Mercosul também foram tratadas e, segundo o ministro brasileiro, Le Drian teria ressaltado o interesse francês em concluir o tratado, apesar das ressalvas.

Conforme Araújo, as divergências políticas entre os governos da França e do Brasil, assim como o redirecionamento da diplomacia brasileira para os Estados Unidos, não afetam a relação entre Brasília e Paris. “Não houve nenhuma menção negativa na reunião”, destacou.

O chanceler disse ainda esperar que os cortes no orçamento não atinjam o projeto de fabricação de submarinos nucleares, feito em parceria com a França. Na manhã desta sexta-feira, Araújo se encontrou com diretores de multinacionais francesas, em especial do setor de energia, como Total, Engie, Thales.

Desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro veio à Europa em uma ocasião, para o Fórum Econômico de Davos, na Suíça. Por enquanto, não há outros convites para 2019 e a prioridade do Itamaraty é acertar uma viagem à Itália, cujo governo nacionalista é visto com simpatia por Brasília.

Identificação com provável onda nacionalista na Europa

O Brasil acompanha as eleições europeias que começaram nesta quinta-feira (23) e vão reconfigurar o Parlamento do bloco, com uma esperada ascensão de partidos nacionalistas e populistas. “Parte de uma tendência mundial de recuperação das identidades nacionais, de certos valores de nacionalidade com os quais, em certa parte, a gente coincide. É bastante indicativo de que há um vento que sopra numa determinada direção, que nos parece interessante”, avaliou o ministro.

Na quinta-feira, ele havia minimizado o impacto econômico que essa virada poderia representar para países como o Brasil, inclusive ao atingir os planos de acordos comerciais, já que esses partidos tendem a defender mais protecionismo e rejeitar tratados de livre comércio.

“É um cenário que vamos ter de avaliar”, disse. “Mas, ao mesmo tempo, há uma certa proximidade de ideias, de visão de mundo que pode compensar até mais do que essas questões. Ter uma boa relação política com base em ideias compartilhadas, isso é sempre favorável, mais fácil de traduzir isso em instrumentos concretos na área econômica e em outras áreas, do que o contrário.”