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Diretor brasileiro de animação mostra preocupação com diminuição de incentivo público durante Festival de Annecy

Por RFI

A RFI conversou com Guto BR, um dos diretores do curta-metragem “Sangro”, o único filme brasileiro concorrendo a prêmio no Festival Internacional de Annecy. Ele falou de sua carreira, que decolou graças ao festival em 2014, e se mostrou preocupado com a situação política no Brasil.

Diretor de um dos destaques brasileiros neste que é um dos maiores festivais de animação do mundo, Guto BR não escondeu a empolgação de participar com mais um filme em Annecy. “Para mim é uma honra estar aqui. Ainda mais neste momento político muito delicado. É muito importante nós termos um filme nacional representando o nosso cinema”, afirmou. “Sem esquecer que o filme trata de assuntos referentes a causa LGBT e também fala sobre pessoas portadoras do vírus HIV, que estão com seus direitos em risco”, ressaltou Guto.

O curta “Sangro” está entre os 23 selecionados na competição Perspectives Short Films. Inspirado em uma história real, a produção, de pouco mais de sete minutos, é uma confissão íntima de uma pessoa que vive com o HIV, das primeiras sensações ao turbilhão de sentimentos provocado pela doença. “Esse é um assunto onde ainda existe muito tabu. Ele é necessário para que as pessoas saibam mais. O Thiago Minamisawa e o Bruno Castro criaram o projeto e conseguiram captar a verba, escreveram todo o texto que é narrado por Caio Deroci, que foi quem serviu de inspiração”, contou o diretor.

Transformar em imagem

“Quando chegou para mim, o filme já tinha uma história, um texto. A minha participação foi em transformar em imagem”, disse Guto. “Mostrar como uma pessoa com HIV se encontra de frente com a morte. E nisso, ela sente a necessidade de expor tudo o que ela pensa, em sentimento, em arte, em expressão visual, em experimentação de animação”, explicou o diretor.

Guto BR também falou da importância do Festival de Annecy em sua carreira. “A minha primeira vez em Annecy foi em 2014, com meu curta-metragem de graduação. Ele foi minha porta de entrada para o mercado. Eu consegui minha primeira experiência profissional e todas as seguintes, graças a esse trabalho, que se chamava ‘Fuga Animada’”, contou o brasileiro. “É um carimbo que nós ganhamos que facilita muito o diálogo com possíveis oportunidades”, afirmou.

Mas o presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA) se mostrou preocupado com a situação conturbada da política no Brasil, que segundo ele, poderá afetar o setor do audiovisual. “O temor que existe é o fim dos incentivos. Pois nosso cinema vive do incentivo público, do dinheiro estatal. A nossa preocupação é que esse investimento acabe. Isso aconteceu uma vez, quando o Ministério da Cultura foi transformado em Secretaria. E com isso, o nosso cinema perdeu incentivo, e o que o sustentou foi, basicamente, publicidade e atores independentes.

Mercado será impactado

Para o diretor é certo que haverá um impacto para quem trabalha nesse mercado. “Que o mercado será enfraquecido, que entraremos em uma situação muito frágil, é uma real. Essa incerteza cria problemas no mercado. Fica muito mais difícil para uma produtora segurar um funcionário se ela não sabe se vai ter caixa pro ano que vem”, ressaltou.

Para Guto BR, esse tipo de situação enfraquece a produção nacional. “O audiovisual é a forma de entretenimento e arte mais consumida no mundo inteiro. Se você não tem uma produção de seu próprio país, estará automaticamente consumindo a cultura de outro. Você acaba perdendo a sua identidade e passando a ter a identidade desse outro país”, concluiu.

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