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França se prepara para onda de calor com sensação térmica de até 50°C em Paris

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Sol nesta tarde de segunda-feira na Torre Eiffel. Onda de calor é esperada na maior parte do país REUTERS/Philippe Wojazer

As temperaturas devem começar a subir nesta segunda-feira (24) em toda a França. Paris e região estão em alerta laranja, o penúltimo antes do nível máximo, de acordo com o serviço de meteorologia francês, Météo France. A responsável por esse fenômeno é uma massa de ar quente oriunda do deserto do Sahara e da Espanha, que chega no início da semana às regiões norte e noroeste do país.


A partir desta terça-feira, o calor atingirá todas as regiões francesas. O pico deve ocorrer na quarta e quinta-feira (26) e será caracterizado pelas temperaturas diurnas próximas de 40°C e noturnas acima de 23°C. Apenas a parte do território francês banhada pelo Atlântico será poupada, onde os termômetros não devem ultrapassar 35°C.

Esta é a primeira vez que um episódio semelhante acontece em junho, no início do verão no hemisfério norte. Segundo as previsões meteorológicas, o recorde de temperatura de agosto de 2003, que matou 15.000 pessoas, pode se repetir. Na época, durante nove dias seguidos, Paris registrou média de 39°C. Em 15% das cidades francesas, os termômetros ultrapassaram 40°C.

Nas grandes cidades, como é o caso da capital, o calor sempre é mais intenso, lembra o meteorologista Jean Jouzel, em entrevista à RFI. “No centro da capital, as temperaturas podem subir até três graus a mais do que no subúrbio ou outras regiões menos densas em termos populacionais. As diferenças podem chegar até 10°C”, explica. “Isso está ligado à existência de muitas superfícies que absorvem o calor nas cidades, como o concreto dos prédios e das ruas”, detalha. Segundo ele, o “calor urbano” gerado pelas construções também pode ser sentido à noite, diferentemente do campo, onde as temperaturas tendem a cair de maneira mais abrupta depois do pôr do sol. “Dentro de Paris, por exemplo, não refresca à noite”, ressalta.

O meteorologista francês Hervé Le Treut lembra que a falta de vegetalização nas cidades e a poluição do ar contribuem para acentuar a sensação térmica elevada. “Foi o que aconteceu em 2003. Houve mortes causadas diretamente pela canícula, com infartos, por exemplo, e outras geradas pelo efeito da má qualidade do ar”, lembra. Para enfrentar o calor, a capital adotou o chamado “Plano Canícula”, que prevê uma série de medidas para proteger a população. Entre elas, o acesso facilitado a cerca de 800 locais com ar condicionado, como museus, bibliotecas ou igrejas.

Atendimento reforçado nos hospitais

Diante do risco de superlotação nos prontos-socorros, a ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, declarou que tudo será feito para reforçar o atendimento nos hospitais e atender a provável forte demanda. A previsão é que as temperaturas se mantenham altas por pelo menos seis dias. “Em 2003 ninguém sabia o que era uma canícula e quais eram suas consequências. Desde então, vários progressos foram feitos”, assegurou a ministra nesta segunda-feira (24), em entrevista à imprensa. O risco de desidratação é mais alto principalmente entre idosos, bebês e crianças pequenas, que têm mais dificuldade para regular a temperatura interna.

Segundo a ministra francesa, hospitais, casas de repouso e outras infraestruturas, incluindo o transporte coletivo, estão preparados para enfrentar o calor. O Ministério do Esporte também vai adiar algumas competições esportivas para não colocar os atletas em risco – a atividade física intensa é desaconselhada. Agnès Buzyn lembra, entretanto, que quando as pessoas são mais frágeis, correm mais riscos e há naturalmente um aumento da mortalidade. “Foi o caso do ano passado, mas não se compara a 2003.”

Idosos devem ser monitorados

Nas casas de repouso para idosos, conhecidos na França como EHPAD, tudo está sendo preparado para proteger os residentes. Em entrevista à rádio France Info, Madame Blanchet, 80 anos, uma das hóspedes de uma casa de repouso em Val de Marne, na região parisiense, disse que está tomando mais água do que de costume para evitar a desidratação, e tomando outras medidas. “Tenho um ventilador no quarto. Por medida de precaução, tento não me mexer muito”, disse.

De acordo com Florence, uma das responsáveis do estabelecimento, é preciso lembrar aos idosos que eles devem beber água, “porque eles simplesmente se esquecem”, salienta. Ela também diz que, quando está quente, os enfermeiros são mais vigilantes. “Passamos em seus quartos com mais frequência”, explica. Na cozinha, o cardápio também foi adaptado e a preferência foi dada aos pratos frios. Salas com ar-condicionado também foram colocadas à disposição dos residentes. A medida, disse Régine, 90 anos, também entrevistada pela rádio France Info, é considerada “essencial”, principalmente porque seu quarto está exposto à luz solar das 14h até o pôr-do-sol. Ela se lembra que, em alguns anos, a temperatura chegou a 31°C à noite.

Situações de crise também evidenciam a falta de profissionais nos estabelecimentos para idosos, lembra Florence. “Vão nos pedir para fazer mais esforços para os residentes, mas nós mesmos não temos tempo para cuidar da gente. O calor é intenso para todo mundo”, ressalta. No ano passado, 1500 pessoas idosas morreram durante o verão, apesar de 2018 ter sido considerado como um ano de calor moderado. O plano contra canícula adotado pela prefeitura de Paris também prevê um dispositivo que permite aos idosos ou pessoas isoladas receberem visitas para assegurar seu bem-estar no período.

Como os franceses vão enfrentar o calor?

A imprensa francesa tem dado grande destaque ao tema e à maneira como os franceses vão se proteger do calor. O jornal Le Parisien, que chegou às bancas nesta segunda-feira (24), foi às ruas ouvir o que os parisienses pretendem fazer nos próximos seis dias para aliviar os efeitos das temperaturas elevadas.

O cozinheiro Erwan Ledantec, por exemplo, diz estar habituado a trabalhar em locais quentes. Ele costuma tomar de três a quatro litros de água por dia. Pai de três crianças, o francês evita sair de casa e dá banho de mangueira nelas em seu jardim, na cidade de Tréguier, na Bretanha.

Já a jornalista Alice Heras, que mora no 20° distrito da capital, disse que vai ao cinema, “unir o útil ao agradável”. Ela também afirma que privilegiará a bicicleta para se locomover nos próximos dias, já que o metrô “é insuportável quando está quente”. Alice também evitará sair de casa antes das 21h. A gerente comercial Delphine Affouard, que mora na região parisiense, costuma guardar garrafas de água no congelador e ir ao supermercado para se refrescar no ar condicionado. As artimanhas ajudam a sobreviver no clima literalmente desértico que tomará conta da França nesta semana.