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França pode suspender subvenção à homeopatia após agência declarar terapia ineficaz

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Vinte mil médicos prescrevem homeopatia na França. AFP PHOTO MYCHELE DANIAU

Em um relatório divulgado nesta sexta-feira (28), a Alta Autoridade de Saúde (HSA) da França recomenda ao governo suspender o pagamento dos medicamentos homeopáticos cobertos atualmente pelo sistema público de Seguridade Social. O parecer é uma vitória para o coletivo Fakemed, formado por um grupo de médicos muito ativo no Twitter e que defende o fim do financiamento público à medicina alternativa em nome da “luta pela ciência”.


A HAS analisou durante nove meses dados científicos de 24 doenças e sintomas tratados com homeopatia, como distúrbio de ansiedade, verrugas e infecções respiratórias agudas em crianças, e chegou à conclusão que a eficácia dos tratamentos é insuficiente para justificar o reembolso pelos cofres públicos.

A homeopatia, criada no século 18 por Christian Friedrich Samuel Hahnemann, médico, químico e pesquisador alemão, é um método terapêutico que consiste em prescrever a um doente, sob uma forma diluída e em pequeníssimas doses, uma substância que, em doses elevadas, é capaz de produzir num indivíduo sadio sinais e sintomas semelhantes aos da doença que se pretende combater. Hahnemann realizou várias experiências em si mesmo e concluiu que “os semelhantes curam-se pelos semelhantes”, um conceito que sempre foi criticado pelos defensores da medicina convencional.

Segundo a HAS, nenhum estudo “robusto” permitiu avaliar o impacto dos remédios homeopáticos na qualidade de vida dos pacientes, a redução do consumo de outros medicamentos ou do número de hospitalizações. No relatório que será entregue à ministra da Saúde, Agnès Buzyn, os especialistas destacam que nem sempre há necessidade de se recorrer a medicamentos, clássicos ou homeopáticos, para tratar doenças sem gravidade ou que tendem a desaparecer espontaneamente.

A ministra da Saúde vai decidir se acatará ou não a recomendação da HAS. Nas últimas semanas, ela indicou em várias ocasiões que pretendia seguir o parecer.

A campanha feita por um grupo de 124 médicos que se opõem à homeopatia e a outros tipos de medicina alternativa foi determinante. Em março do ano passado, eles publicaram um abaixo-assinado na imprensa com o objetivo de combater a “desinformação” e o que consideram “pseudociências”.

O presidente do coletivo Fakemed, Jérémy Descoux, diz que a homeopatia é a parte visível do iceberg. Descoux também denuncia os complementos alimentares de “péssima qualidade” vendidos em farmácias e supermercados, sem nenhum valor para a saúde, segundo ele. O médico é um defensor radical da medicina baseada em pesquisas e em amplos estudos clínicos, a ponto de classificar a acupuntura no campo das “derivas sectárias”.

Empregos ameaçados

O parecer da HAS foi criticado pelo laboratório Boiron, um dos três maiores fabricantes de medicamentos homeopáticos na França, ao lado das marcas Lehning e Weleda. Em comunicado, a empresa condenou o prazo do estudo, considerado curto demais para avaliar os efeitos de uma terapia que é prescrita por 20.000 médicos na França.

De acordo com o grupo farmacêutico, 1,1 milhão de franceses se manifestaram contrários à suspensão do reembolso da homeopatia pelo governo. A empresa, fundada em 1932 pelos irmãos e farmacêuticos Jean e Henri Boiron, emprega 3.672 pessoas no mundo, 2.600 apenas na França.

O posicionamento da HAS levou a uma queda brusca das ações do laboratório na Bolsa de Valores de Paris. Um grupo de 600 pessoas vestidas de branco, funcionários da Boiron, médicos e pacientes, fizeram um protesto durante a manhã em frente à prefeitura de Lyon, cidade sede do laboratório, para protestar contra as conclusões da HAS.