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Rodrigo Ferreira: dos templos evangélicos no Brasil à cena lírica internacional

Por Maria Emilia Alencar

Ele nasceu em São Paulo, começou se apresentando em corais de igreja, até ser encorajado pelos amigos a ir em busca do sonho de se tornar cantor lírico. Hoje, Rodrigo Ferreira conquistou seu espaço não só na música, mas também faz carreira no teatro. A RFI conversou com ele durante o Festival de Avignon, onde integra o elenco da peça Nous, L’Europe, Banquet des Peuples.

Em cartaz até o dia 14 de julho, o espetáculo fala sobre a construção de uma identidade europeia. "A Europa é uma utopia, é um sonho que, como diz a peça, está ameaçado pelo populismo”, afirma. “Mas a ideia da Europa pode espalhar-se pelo mundo, em continentes como a África, pois seria um bom equilíbrio para as nações”, analisa. 

A peça tem texto de Laurent Gaudé e concepção musical e direção de Roland Auzet. “O Laurent Gaudé é um escritor bastante histórico. Tínhamos medo de que o espetáculo ficasse demasiadamente histórico, afinal temos que contar o que foram as guerras, todos os conflitos, as convulsões sociais e as mudanças políticas. Mas é um espetáculo histórico com muita música e dança”, descreve.

Rodrigo é contratenor e já tem uma carreira de 17 anos na Europa. Atualmente, o jovem trabalha com grandes nomes do mundo artístico internacional. Algo que ele desejava desde que começou a cantar, ainda menino, nas igrejas evangélicas do Brasil. 

"Eu sempre quis vir para a Europa para estudar canto lírico. Os professores do conservatório sempre me aconselharam, por causa da cultura europeia. Os compositores alemães, italianos, espanhóis, ingleses, franceses, todo o repertório está aqui”, explica.   

Do repertório religioso para o canto artístico

Desde muito cedo, Rodrigo Ferreira foi influenciado pela família a participar da cena musical religiosa. "Minha mãe é uma senhora protestante muito respeitada da Assembleia de Deus. Ou seja, eu cresci cantando no coro desde os quatro anos. Logo virei maestro do coral, enquanto minha irmã ensinava música às crianças e minha mãe cuidava das senhoras. Éramos muito ativos no templo e sempre tinha muita música clássica, seja (Georg Friedrich) Händel ou (Johann Sebastian) Bach, nós fazíamos as traduções em português", relembra.

Se fosse pela família, Rodrigo se tornaria um cantor gospel. Mas foi o apoio dos amigos e os aplausos de desconhecidos que se mostraram fundamentais para que ele seguisse adiante. "Minha mãe queria que eu virasse cantor evangélico. Mas quando eu estava no cursinho, estudando para entrar na arquitetura da USP, teve uma noite musical com muita poesia. Eu cantei uma música do Paulinho da Viola, um chorinho, acompanhado de um amigo na guitarra”, conta. “No fim da canção, todo mundo estava de pé aplaudindo. Eu levei um choque, porque nunca tinha recebido aplausos no templo e esse contato com o público, que admira a tua arte e te manda energia e coragem, me fez pensar: ‘por que não’?”

Ao final da apresentação, um amigo flautista, que estava estudando para entrar no curso de medicina, lhe disse: “você tem que cantar”. Foi esse mesmo amigo que inscreveu Rodrigo na escola municipal de música. “Eu cantei uma ária da ópera Carmen, em italiano, e fui aceito. Foi uma professora que me falou: ‘se você quer ser cantor de ópera, vá para a Europa’”, diz.

A chegada ao Velho Continente

Rodrigo tinha 21 anos quando finalmente veio para a Europa. "Cheguei aqui fazendo uma turnê com o espetáculo Os Lusíadas, produzido pela Ruth Escobar. Fomos para o Festival Internacional de Teatro Ibérico, no Porto, e então para Lisboa. No final do tour, em julho de 2002, eu e vários atores do elenco decidimos ficar na Europa", conta.

Ao chegar ao velho continente, Rodrigo Ferreira perseguia o sonho de ser barítono. Até que, novamente, uma de suas mestras foi determinante para a sua carreira. “Eu encontrei uma professora de canto e ela me falou: ‘você não é barítono, você é mais tenor’. Então eu comecei a estudar em tenor. Entrei no conservatório como tenor, mas sempre cantando com a voz de falsete que era muito natural para mim”, afirma.

Preconceito

Se na Europa a voz de barítono era aceita, o mesmo não se pode dizer dos primeiros anos de carreira. “No Brasil, muito rapidamente me falaram: ‘não canta com essa voz aqui porque é uma voz meio gay’. O povo lembrava do Freddie Mercury. Há muito preconceito ainda, o Brasil é um país homofóbico, racista, classista. Enquanto na Europa é uma voz muito amada”, compara. 

Se a voz não lhe impunha barreiras, o fato de ser negro lhe limitava a certos tipos de papéis.

"No conservatório eu era tenor, cantando de contratenor sempre que podia. Fiz muito concerto de música clássica e a verdade é que eu já estava com um instrumento pronto para fazer carreira em voz de falsete e, ao mesmo tempo, estudava para ser tenor. Mas essa coisa da raça é muito interessante”, explica. “Porque eu comecei uma carreira de tenor fazendo papéis de empregado, de mouro. Foi quando me falaram que ser negro e fazer carreira de tenor ia ser difícil”, conta.

Foi como contratenor que Rodrigo encontrou mais espaço. De acordo com o artista, nesse caso os textos são mais antigos, como fábulas, e foi assim que ele encontrou papéis mais interessantes.

A dramaturgia

"Isso de fazer espetáculo de teatro foi uma vontade minha, de trabalhar com dançarinos, coreógrafos e atores de teatro de verdade”, afirma o artista. “O teatro deixa mais liberdade porque é um texto novo, argumenta.

Rodrigo logo se juntaria ao grupo Le Balcon, em Paris. “O legal da música contemporânea é que o compositor está vivo e a gente tem sempre uns textos mais interessantes. Inclusive um dos papéis mais interessantes que eu fiz foi o da Madame Irma na peça O Balcão, de Jean Genet”, diz. “Um compositor húngaro, Péter Eötvös, fez uma ópera para essa peça e o papel principal, da Madame Irma, era previsto para uma mezzo soprano contralto. Mas uns amigos tiveram a ideia de colocar um contratenor, como se fosse um travesti que fosse a tal dona do bordel e foi um grande sucesso”, comemora. 

Primeira vez em Avignon

A primeira participação no renomado Festival de Avignon foi um marco na carreira. "É uma sorte imensa estar em Avignon. Eu estou muito contente de poder fazer teatro e de ter um texto falado. O cantor lírico sempre tem um complexo, está sempre cantando e cantar é muito bom, como um passarinho, mas isso de falar, de dizer um texto numa cena de teatro nesse festival é o must”, afirma com orgulho.

Para um cantor que já acumula larga experiência, em poucos anos de trabalho, o futuro traz muitos desafios ainda. "Eu gostaria, num futuro próximo, poder ser diretor de cena de ópera. Eu acho que a ópera precisa de diretores que vêm do teatro. Eu era muito próximo do Antunes Filho que faleceu esse ano, em São Paulo. E as artes estão cada vez mais se misturando. Fiz espetáculos com coreógrafos, recentemente com o Alain Platel, ou seja dança, teatro e música estão sempre juntos”, diz.

Rodrigo Ferreira é um artista múltiplo, capaz de tocar vários projetos ao mesmo tempo. O próximo desafio será a ópera Revelo, do chileno Marco Antonio Suaréz-Cifuentes. Ele também segue no palco com o grupo Le Balcon, em Paris, além de atuar na ópera Amadigi, de Haendel, e fazer turnê do espetáculo Nous, L' Europe em cidades europeias e no Canadá. O artista ainda tem planos de fazer parte do Réquiem, de Alain Platel.

Projeto de ir ao Brasil

Considerado um dos artistas mais completos de sua geração, ele ainda espera o dia de poder cantar na Sala São Paulo ou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

“Eu tinha dito para a minha mãe que não iria ao Brasil nos próximos 4 anos, mas gostaria muito de ir ao Brasil trabalhar, voltar ao país como artista. Isso se a cultura não for destruída no nosso país”, conclui.

Nous, l’Europe, Banquet des peuples © Christophe Raynaud de Lage

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