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Monólogo de ator brasileiro em Avignon resgata canções desconhecidas de Pasolini, entre erotismo e engajamento

Por Maria Emilia Alencar

Entre os quase 1.600 espetáculos do Festival OFF de Avignon, um brasileiro se destaca, na pele do famoso poeta revolucionário, jornalista e diretor italiano Pier Paolo Pasolini. Não é apenas a impressionante semelhança física do ator, bailarino e cantor Antonio Interlandi com o italiano que vem seduzindo o público no maior festival de teatro da França, mas o caráter poético do monólogo Pasolini em forma de rosa – um trocadilho com o poema original do mestre italiano, Poema em forma de rosa (em tradução livre).

Enviada especial a Avignon

O monólogo é inspirado nos poemas de Pasolini e nos textos deixados para uma atriz italiana e seu último amante e ator-fetiche, Ninetto Davoli, protagonista de filmes como O Decameron. “Minha afinidade intelectual com Pasolini surgiu a partir de René de Ceccatty, o principal tradutor de sua obra aqui na França, que já escreveu várias obras sobre ele. Diversas vezes Ceccatty me pediu para fazer leituras de peças do Pasolini, e pouco a pouco fui me familiarizando com sua obra poética e seus sonetos, com o pensamento do Pasolini”, diz Interlandi.

O ator participou da celebração dos 40 anos da morte do autor italiano em Paris, no teatro do Rond-Point, em 2018. “Ceccatty me disse que eu deveria cantar as canções de Pasolini, que eu não conhecia. Muita gente desconhece esse material”, conta. A partir daí, surgiu o desejo de fazer o espetáculo que realizou uma temporada em Paris, antes de desembarcar em Avignon, no sul da França.

“O público de Avignon é ávido e conhece [teatro], é perigoso... Todo mundo vê quatro, cinco peças por dia. Um blog muito importante aqui colocou nosso espetáculo entre os 50 melhores do OFF, o que não é pouca coisa, entre quase 1.600 peças”, celebra Interlandi. “O público tem nos recebido bem, apesar de não saberem ao certo do que se trata. É uma parte mais desconhecida da obra do Pasolini, por causa justamente das músicas. Entre a surpresa e a alegria de descobrir esta face um pouco oculta do Pasolini, a peça parece estar dando certo”, diz.

Controverso e sensual

Passional e polêmico, Pasolini tem retratada na peça suas pulsões sexuais, por meio de textos sensuais. Mas, para Antonio Interlandi, o que interessa no trabalho do autor italiano é a sua surpreendente atualidade. “Escolhi não representá-lo em cena. (...) É um jovem de hoje em dia falando sobre ele”, diz. “Apesar de ser intelectual, o espetáculo é acessível. Quem não conhece nada do Pasolini, sai com uma visão do que foi a sua vida. A música é um link muito bom, ela permite e facilita tudo”, afirma.

Polivalente, Interlandi tem um percurso de formação em dança, teatro e canto na Europa. “Isso me dá muita liberdade”, atesta. Bem-humorado, o ator lembra o cotidiano particular dos artistas que se aventuram no Festival de Avignon, que inclui a tradicional panfletagem, e uma técnica artesanal de colagem e amarração de cartazes, com o objetivo de não danificar os muros medievais da “Cidade dos Papas”. “Começa de manhã, com as velhinhas na padaria. Mas tenho a sorte de ter um acordeonista comigo no espetáculo, e quando saímos na parada para distribuir os panfletos anunciando o espetáculo, as pessoas ficam surpresas. Temos que andar no sol de 40°C, falar da peça, porque disputamos o público de Avignon”, diz.

O monólogo Pasolini em forma de rosa ganhou o apoio do artista plástico francês Ernest Pignon-Ernest, precursor do grafite. “Ele está em cartaz com uma exposição enorme no Palácio dos Papas, o antigo palácio papal [palco principal de Avignon]. O pôster desta exposição é um desenho do Pasolini. Ele conhece e gosta da peça e está nos dando muita força. (...) A gente sabe que o público de Avignon aprecia bastante o boca-a-boca”, conta Interlandi.

O artista lembra que, mesmo se o maior festival de teatro da França consegue resgatar com elegância grandes autores como Rimbaud ou Molière, misturando-os a criações locais, “há que se ter em mente que Avignon é um grande mercado”. “Os diretores e programadores de teatro da França vêm para Avignon para comprar a temporada deles”, diz o ator, que pretende levar o monólogo ao Brasil.

Questionado sobre o risco da peça não ser bem recebida no Brasil, pelo teor subversivo e erótico dos textos e do pensamento de Pasolini, Interlandi se mostra sereno. “Ninguém vai me bloquear um teatro, a menos que venham com uma petição policial, mas não tem razão nenhuma para isso acontecer. Meu projeto é inclusive começar pela tradução da obra de Pasolini que eu abordo neste espetáculo, porque nem tudo foi ainda traduzido para o português”, antecipa. “Se o governo vai me censurar ou não, talvez seja a minha última preocupação”, pontua Interlandi.

“O engajamento é uma coisa inelutável. É exatamente isso que o Pasolini diz na peça. Não tem como escapar do engajamento. Senão não existe razão para viver. É engraçado, ele se abstrai do próprio trabalho porque diz que gostaria de ‘apenas viver’. Porque é a vida que se exprime”, conclui o ator.

Ator Cantor e bailarino Antonio Interlandi presse/Pasolini

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