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Fotografia Arles

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Em Arles, fotógrafo francês transforma capela medieval em “camara obscura”

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Claude Martin-Rainaud explora o fenômero da "câmera escura". Foto: Patricia Moribe

A estética da fotografia evolui sem parar, como mostra os 50 anos do festival Encontros de Arles, que está sendo realizado no sul da França. Entre homenagens e retrospectivas, o evento abre portas para experimentações, como é o caso da instalação “Camara Obscura” (câmera escura), do francês Claude Martin-Rainaud.


Da enviada especial a Arles

As setas indicam o alto da capela Méjan, da igreja São Martinho de Arles, cuja construção teve início no século IX. A escadaria medieval é íngreme e gasta. Ao invés de uma vista extraordinária para o rio Rhône, como seria de se esperar, o espaço é de muita escuridão. Quando os olhos se acostumam, imagens tênues começam a aparecer em uma parede. Prédios antigos. Árvores. Um carro que passa. Tudo em movimento e de ponta cabeça!

É o princípio da “câmera escura”, observado por chineses e gregos na antiguidade, e que é a base da fotografia no século XIX. Ou seja, em um ambiente escuro, se um furo deixar passar luz, a imagem do exterior será reproduzida na parede em frente, de forma invertida.

Caixa de sapato vira câmera

Reduzindo a escala do espaço para uma caixa de sapatos, por exemplo, pintando o interior de preto e fazendo um pequeno furo em uma das paredes, temos uma câmera fotográfica. Basta deixar o furo coberto e colocar papel fotográfico sensível do lado oposto ao buraco na parte interna. Tudo no escuro, por enquanto. Deixando o furo aberto alguns segundos, com imagem e luz vindos do exterior, uma imagem invertida se imprime no papel, que, revelado, é uma foto.

“Eu vivenciei o fenômeno pela primeira vez aos seis anos”, conta Claude Martin-Rainaud para a RFI. “Todos os verões, durante três anos, eu, minha mãe e minha irmã menor íamos para as colinas de Arles. De tarde, eu era obrigado a fazer uma sesta depois do almoço. Sem poder dormir, eu via minha mãe amamentando minha irmã, fazendo os afazeres da casa. Via os animais, as árvores mexendo. Tudo de cabeça para baixo. Quando eu contava isso para os adultos, ninguém acreditava”.

Desde então, o menino Claude ficou fascinado pelo fenômeno. “Adolescente, eu ganhei uma câmera americana Argus do meu pai e já tentava capturar as imagens invertidas que via no sótão da casa da minha avó”. Com os estudos de cinema e fotografia em Paris, nos anos 1960, Martin-Rainaud tentava aprimorar a técnica. Mas passou a trabalhar, deixou a fascinação da câmera escura de lado e saiu pelo mundo.

Obsessão pela cor

“Eu trabalhei muito o fenômeno em preto e branco, mas era a cor que me fascinava, a transformação do matiz exterior em contato com a matéria interior, como a madeira”, relata. “Mas só no final dos anos 1970, com as primeiras imagens digitais, eu percebi que isso seria possível. Tive de esperar ainda uns 20 anos para poder manipular melhor a técnica, estudar o tempo de exposição, com cores.”

“Fiz uma tese de doutorado sobre a câmera escura em Veneza. Escolhi a cidade porque todo um movimento de pintores do final do século XVII até o início do século XVIII utilizou a câmera escura para obter as perspectivas de paisagens. Depois passavam o traçado e as cores para a tela. Era uma espécie de rascunho”, explica.

Nos passos de Canaletto

O fotógrafo encontrou a janela exata de onde o pintor italiano Canaletto (1697-1768) obteve as perspectivas de uma série de treze quadros da vista para o Grande Canal, em direção à ponte Rialto. Martin-Rainaud fotografou a cena invertida, claro, refletida no interior de um prosaico escritório. O quadro faz parte da série que ele expõe na galeria Fotohuis, de Arles, paralelamente à instalação na capela, em que o visitante se vê, como o pequeno Claude, dentro de uma câmera escura.

Apesar de ser de Arles, ele não acompanhou o desenvolvimento do festival. “Às vezes eu até estava na cidade, mas o festival era um grupo fechado de amigos, que não gostavam de jovens se intrometendo naquele mundo”, desabafa. Agora, aos 76 anos, ele é um dos destaques do programa oficial dos Encontros.

Claude Martin-Rainaud, View of the Clock Tower of Saint Trophime from the Upper Hall of the École du Cloître, Cour du Palais de l'Archevêché, Arles, 2018. festival Arles