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Um pulo em Paris
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Paris inaugura em setembro primeiro cemitério ecológico

Por Adriana Moysés

A prefeitura de Paris decidiu criar uma área dedicada a enterros ecológicos no cemitério de Ivry, vizinho ao 13° distrito da capital. A iniciativa responde a uma demanda de cidadãos por rituais funerários respeitosos do meio ambiente. O sepultamento tradicional e a cremação são considerados poluentes.

O enterro ecológico representa uma mudança cultural em hábitos enraizados há séculos na França. Com seus cemitérios ricos em túmulos assinados por arquitetos e artistas, verdadeiros museus a céu aberto, abrir mão da construção é um avanço. As regras aprovadas pelo Conselho de Paris, equivalente a uma Câmara de Vereadores no Brasil, são estritas.

Desaparecem os mausoléus e o revestimento de cimento nos jazigos subterrâneos, encontrados nos cemitérios de tipo parque. Esse tipo de edificação requer materiais e um gasto de energia que causam um impacto durável no solo. No cemitério ecológico de Paris, o uso de produtos químicos será proibido. Há dois anos, a prefeitura já havia abolido o uso de herbicidas nos cemitérios, parques e praças da cidade.

Ritual funerário sustentável

A legislação francesa estabelece que o enterro ou a cremação devem acontecer num prazo mínimo de 24h ou no máximo seis dias após o falecimento. A lei não obriga as funerárias a embalsamar o corpo, mas esse tipo de serviço é proposto com frequência e muitas famílias aceitam, principalmente quando o enterro é marcado quatro, cinco dias depois do falecimento. O incoveniente é que o formol e produtos derivados, usados para evitar a decomposição do corpo, são considerados cancerígenos e se espalham no solo, contaminando o lençol freático. No cemitério ecológico de Paris essa prática será proibida.

Caixão biodegradável

Para reduzir o impacto ambiental, os caixões e urnas serão obrigatoriamente de madeira ou de papelão biodegradáveis, sem almofada sintética, tinta ou verniz. Os mortos só poderão ser enterrados com roupas de fibras naturais e nada mais. Existe uma atividade comercial muito forte das funerárias, que acrescentam itens inúteis aos caixões e enterros para aumentar o faturamento.

A antropóloga francesa Manon Moncoq, especialista do funeral e do meio ambiente que trabalhou no projeto do cemitério ecológico parisiense, costuma dizer: "Tudo o que se coloca no caixão termina no chão". É como jogar uma roupa, jóias ou itens pessoais no meio da natureza. Pode ser interessante para o ritual, mas não será biodegradável e, por consequência, nocivo ao planeta.

Para reduzir a pegada ecológica, é mais aconselhável usar um simples manto de fibras naturais. As placas de identificação dos mortos também serão de madeira.

Retorno de pás e enxadas

Há uma mudança que pode parecer um retrocesso, mas faz parte do desafio de adaptação a práticas menos poluentes. Os coveiros voltarão a remover a terra com as mãos e a ajuda de pás e enxadas. No cemitério ecológico de Paris, não será permitido o uso de retroescavadeiras com motor à diesel. Esses equipamentos são utilizados há décadas no país.

Atualmente, 34% dos franceses preferem a cremação ao enterro tradicional. Mas a incineração também produz gases poluentes, inclusive resíduos de metais pesados, presentes em implantes dentários antigos ou próteses. Com o uso de filtros adequados, o processo contaminaria bem menos o ar, mas a adoção da proteção ainda não é obrigatória nos crematórios franceses.

Nova crença: corpo pode ser fértil após a morte

O primeiro cemitério sustentável da França surgiu em Niort (sudoeste). Em maio passado, a cidade de Arbas, na região dos Pirineus, inaugurou uma floresta cinerária. Os franceses que preferem a cremação podem depositar as cinzas de um familiar no pé de uma árvore, em uma urna biodegradável.

A ideia de repousar numa floresta é simbólica e reconfortante. As árvores resistem ao tempo e têm papel determinante para o equilíbrio do planeta, exercendo funções vitais como o controle da temperatura, aumento da umidade do ar, maior controle das chuvas, qualidade da água dos mananciais, controle de erosão, manutenção da biodiversidade, além de produzirem sementes, frutos, madeira, resinas e outros produtos.

A antropóloga Manon Moncoq, que está escrevendo uma tese sobre funerais verdes, com uma análise sobre a nova relação das pessoas ao corpo, à morte e ao meio ambiente, diz que, pela primeira vez na história da humanidade, se vê a preocupação de tornar o corpo humano fértil mesmo depois da morte. Faz parte da lógica da reciclagem, de reinjetar o corpo no ciclo da vida, devolver ao planeta o que a natureza nos deu.

Durante milênios, o corpo permaneceu fechado num túmulo intocável e sagrado. Essa mentalidade está mudando. A nova crença, de um corpo fértil até o fim, encontra seu paroxismo na morte, o último gesto feito durante a vida, conclui a antropóloga.

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