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"Delatores", "mentirosos", "militantes": ataques dos governos do Brasil e da França contra jornalistas podem ser considerados censura?

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O jornalista americano Glenn Greenwald e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Fotomotagem RFI /Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Enquanto o governo Bolsonaro se levanta contra o The Intercept Brasil, o governo Macron mira no Mediapart. Em comum entre os dois países, um jornalismo independente e de investigação que revela irregularidades de seus representantes, chacoalhando as altas cúpulas do poder.


Para o ex-ministro francês François de Rugy, o site de informações Mediapart pratica “um jornalismo de demolição”. Em entrevista ao canal France 2, na noite de terça-feira (23), o ex-homem forte do governo Macron se defendeu das graves revelações feitas em uma série de reportagens do site independente que resultaram em sua renúncia, dizendo-se “um homem limpo e honesto”.

Desde meados de junho, o Mediapart trouxe à tona supostas irregularidades envolvendo De Rugy, desde a época em que era presidente da Assembleia Francesa, cargo que passou a exercer em junho de 2017 e deixou em setembro de 2018, para assumir o Ministério da Transição Ecológica. Entre as várias falhas cometidas pelo ex-ministro, estão jantares suntuosos com lagostas e champanhe, oferecidos a amigos, e reformas luxuosas em seu apartamento de função - gastos astronômicos bancados com o dinheiro público.

Além do ex-ministro, o próprio presidente Emmanuel Macron não poupou o Mediapart de críticas, classificando os jornalistas do site de “delatores”. Mas após uma inspeção interna, o governo concluiu que vários gastos de De Rugy podem ser “considerados excessivos em relação ao que se considera razoável”. Paralelamente, através de uma circular, encaminhou a seus ministros e secretários de Estado uma recomendação sobre as despesas de suas pastas. De acordo com o documento, o executivo pode financiar “apenas os valores relacionados ao exercício das funções ministeriais”.

Por seu lado, o Mediapart promete não ceder e continuar realizando seu trabalho. Em coluna publicada na terça-feira, o confundador e presidente do site, Edwy Plenel, questiona: “Para que serve o jornalismo? Para divulgar a palavra do governo, seus comunicados e propaganda? Ou para revelar informações de interesse público, abafadas ou escondidas? Para acreditar sem verificação em promessas, declarações e defesas oficiais? Ou para confrontar a realidade dos atos, decisões e comportamentos? Para se satisfazer com a perda de confiança do público sobre as instituições e políticos? Ou para fazer evoluir a democracia, levando a sério a promessa original: igualdade de direitos?”.

O Mediapart é financiado unicamente por assinantes. O site não aceita nenhum tipo de publicidade.

Em entrevista à RFI, o historiador Christian Delporte, especialista em História das Mídias e da Comunicação Política da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, avalia que o governo francês enfrenta uma nova situação ao lidar com uma mídia independente, que não é bancada por grandes grupos e, portanto, não pode ser pressionada como a grande imprensa. Por isso, Macron utiliza a estratégia de descredibilização do trabalho jornalístico.

“Há ataques repetidos e sistemáticos por parte governo contra a imprensa desde o caso Benalla, há um ano. A estratégia é de deslegitimar os jornalistas. Quando Macron declarou, há um ano, que a imprensa não diz mais a verdade é uma maneira de descredibilizá-la, apoiando-se sobre a imagem ruim que os franceses têm do jornalismo”, avalia.

Há pouco mais de um ano, o jornal Le Monde revelou que um dos seguranças de Macron, Alexandre Benalla, participou do dispositivo policial das manifestações do Dia do Trabalho em Paris e chegou a agredir militantes - um fato que chocou o país. Após ser afastado de suas funções, o Mediapart descobriu que o segurança continuava utilizando seu passaporte diplomático em viagens internacionais. Outro escândalo revelado sobre o protegido de Macron diz respeito a supostas ligações de Benalla com oligarcas russos que teriam relações com o crime organizado.

Confiança das mídias caiu após eleições

De acordo com uma pesquisa recente divulgada pelo Instituto Reuters, intitulada de "Digital News Report", apenas 24% dos franceses acreditam na imprensa nacional. O índice de confiança baixou 11 pontos no período de apenas um ano. O principal motivo: a cobertura da crise dos coletes amarelos pela grande mídia, considerada duvidosa por boa parte do público do país.

No Brasil, apesar de toda a campanha de desinformação no WhatsApp durante as últimas eleições para presidente, o índice de confiança do público brasileiro é considerado alto, na avaliação do Instituto Reuters. De acordo com o "Digital News Report", 48% do público no Brasil acredita nas notícias. No entanto, a polarização política durante a campanha eleitoral foi responsável por uma queda de 11% em apenas um ano na credibilidade dos brasileiros na imprensa.

Contraditoriamente, a professora da USP Roseli Fígaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, observa que os próprios governos de países como o Brasil, a França e os Estados Unidos são principais difusores de fake news. A especialista lembra que a manipulação de massa sempre fez parte das estratégias de certos governos.

“Os ataques contra a imprensa que estamos assistindo nada mais é do que um reflexo de uma estrutura neoliberal que se impõe, retirando direitos sociais e políticos. Esses governos não podem atuar de outra maneira para implementar seus programas. Essa atitude contra a imprensa é apenas um títere de um processo maior”, afirma.

Para ela, não há dúvidas que essa tentativa de descredibilizar o trabalho jornalístico é uma espécie de censura dos governos. Por isso, acredita que a melhor forma de lutar contra esse problema é a persistência dos profissionais de mídia em continuar executando suas atividades.

“Não é apenas o jornalismo independente que vem sendo atacado. Aqui no Brasil, até mesmo a mídia tradicional é tratada desta forma. Ou seja, são questionados todos os que se contrapõem ao governo. Isso só acontece porque os jornalistas estão fazendo o seu trabalho de apurar os fatos e apontar as irregularidades. Por isso, é importante que os jornalistas continuem executando o seu trabalho, doa a quem doer”, reitera.

Polêmicas e Vaza Jato

Dar sequência ao trabalho que vem realizando é o que promete o editor executivo do The Intercept Brasil, Leandro Demori. O site é responsável por uma bombástica série de reportagens - apelidada de Vaza Jato - que revela conversas privadas entre procuradores do Ministério Público Federal e o então juiz Sérgio Moro, que atuavam na operação Lava Jato.

“Não vamos parar de publicar”, promete Demori. “O trabalho do The Intercept é o jornalismo investigativo. Nosso objetivo é levar ao conhecimento da população tudo o que os poderosos querem esconder”, declarou, em entrevista à RFI.

Desde o início de junho, a equipe liderada pelo jornalista americano Glenn Greenwald fez diversas revelações que demonstram a falta de ética e a parcialidade no sistema político e jurídico do Brasil. Também ressaltam o conluio para a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, e até mesmo a proteção do senador Flávio Bolsonaro, no “Caso Queiroz”, suposto esquema de corrupção dentro de seu gabinete, na época em que era deputado estadual do Rio de Janeiro.

As revelações da Vaza Jato resultaram no aumento de violências contra jornalistas. Glenn Greenwald e o marido, o deputado federal David Miranda (PSOL), chegaram a ser ameaçados de morte. Para Demori, os ataques contra a imprensa estão cada vez mais pessoais no Brasil.

“Os poderosos nunca gostaram de jornalistas. A diferença é que agora os ataques são muito mais direcionados aos jornalistas como pessoas físicas. Hoje vemos políticos no Brasil espalhando mentiras e criando histórias sobre jornalistas, sem nenhum compromisso com a veracidade dos fatos. E isso incita a violência do público também. A partir do momento que você tem o establishment falando mal do jornalismo, as pessoas que acreditam nesses políticos acabam tendo liberdade para serem agressivas também”, salienta.

Por outro lado, Demori percebe um forte apoio do público brasileiro ao trabalho que vem realizando o The Intercept. “Mesmo as pessoas que votaram no Bolsonaro, mesmo as pessoas conservadoras e que se consideram de direita no Brasil reconhecem que esses arquivos da Vaza Jato são autênticos e merecem atenção. É uma parte pequena da população que está veementemente contra a divulgação desse material. Só que é uma pequena parte barulhenta e parece mais volumosa do que realmente é”, observa.

Repressão e autocensura

Os especialistas divergem quanto às possíveis consequências desta estratégia dos governos contra a imprensa. Roseli Fígaro teme uma possível repressão aos jornalistas no Brasil. 

“Como nosso poder judiciário está completamente comprometido com o que levou esse governo ao poder, é muito provável que ele também abaixe a cabeça quando alguma denúncia mais séria acontecer e o governo comece a tomar medidas repressoras contra essas mídias”, diz.

Já Christian Delporte cogita a possibilidade do início de uma autocensura por parte dos jornalistas na França. Para ele, o fenômeno é mais grave do que a censura em si.

“É o medo de escrever, de veicular. A estratégia do governo francês é justamente essa, quando jornalistas são convocados para depor na Direção Geral de Segurança Interior, por exemplo. Trata-se de fazer pressão nas redações para que os profissionais passem a recorrer, por conta própria, à autocensura”, analisa.

No Brasil, diversas organizações de defesa da liberdade de imprensa, ONGs de defesa de direitos humanos e até mesmo a sociedade civil vem denunciando os ataques contra os profissionais das mídias. Para a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), está cada vez mais complicado trabalhar como jornalista no país.

“É importante lembrar a importância para qualquer democracia de uma imprensa livre e independente que possa fazer seu trabalho investigativo e publicar informações de interesse público, sem perseguição, ameaças ou alvo de qualquer campanha de linchamento e desprestígio”, afirma Emmanuel Colombié, diretor do escritório América Latina da RSF.

Em entrevista à RFI, a RSF manifestou seu apoio ao The Intercept, mas também a todos os jornalistas e comunicadores que querem trabalhar de maneira livre e independente. Colombié também rebateu os ataques contra Glenn Greenwald.

“Sabemos que ele está fazendo um trabalho profissional, ético e muito sério. Glenn já foi premiado com um Pulitzer, que é o maior prêmio do jornalismo internacional. As críticas sobre possíveis influências políticas por trás não são absolutamente críveis. Os ataques contra Glenn têm um único objetivo: desviar a atenção do público sobre a gravidade da Vaza Jato”, conclui.