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Revista francesa revela bastidores da ascensão e queda de Carlos Ghosn

Por Silvano Mendes

A revista francesa Le Point desta semana traz uma reportagem de dez páginas sobre Carlos Ghosn, o ex-presidente do grupo Renault-Nissan-Mitsubishi. O texto relembra a carreira do executivo, que perdeu o cargo no início desse ano, acusado de fraude fiscal e desvio de dinheiro.

Com o título “Uma história que não foi contata”, a reportagem traça um perfil de Carlos Ghosn desde o momento em que ele foi nomeado diretor geral da Renault, em 2005, até sua primeira noite na cadeia, no Japão, em novembro de 2018.

A matéria explica como o executivo construiu um modelo de sucesso com a aliança entre a japonesa Nissan e a francesa Renault, mostrando que o franco-líbano-brasileiro é “um industrial e um líder fora do comum”. As jornalistas que assinam o texto contam em detalhes a ascensão de Ghosn até sua queda, “quando ele estava no apogeu”.

Le Point usa como ponto de partida a chegada do executivo à França, já à frente da Renault. O texto revela como equipes de comunicação trabalharam na imagem de Ghosn, até então desconhecido no país, mas que iria dirigir uma empresa que tem participação do Estado francês em seu capital.

O executivo, que nasceu no Brasil, mas fez seus estudos universitários e começou sua carreira profissional na França antes de conquistar o Japão à frente da Nissan, voltava para Paris com uma reputação que assustava os franceses. “Durante sua estadia nipônica, ele demitiu 21 mil pessoas”, lembra a revista, que chama Ghosn de “Robocop da gestão”. “Ele dá medo com suas sobrancelhas em forma de acento circunflexo e sua cara de vilão em filme de James Bond”, escreve Le Point.

O fato de ter nascido no Brasil quase não é mencionado na reportagem, que fala apenas de um executivo com três passaportes (brasileiro, libanês e francês). Em um dos intertítulos, a revista chega a chamar Ghosn ironicamente de “o japonês que desembarca na França”.

Apesar de apresentar o executivo como um profissional muito talentoso, o texto aponta vários defeitos que teriam contribuído para sua queda. A revista revela que em um relatório realizado pelas equipes de comunicação quando ele chegou na França, Ghosn era descrito como alguém que não hesitava diante de nada. “Ele parece seguro demais e não tem papas na língua, o que pode magoar”, relata o texto, que fala de “um homem que dá a impressão de ser uma máquina, sem deixar muito espaço para seu lado humano”.

No entanto, explica Le Point, apesar de seu talento para reerguer a Nissan e aumentar os lucros da Renault, o executivo teria negligenciado as lutas de poder e de influência típicas da França. Hoje, resume a revista, ele está em prisão domiciliar, esperando um processo que não deve acontecer antes de 2020.

A revista resume a situação com uma declaração do franco-líbano-brasileiro, feita durante uma entrevista em 2017. Segundo Ghosn, “na indústria automobilística, tudo parece fácil enquanto as coisas funcionam bem... Mas basta que algo dê errado para que a situação se degrade rápido, muito rápido”.

A reportagem é publicada uma semana após o executivo ter lançado um processo contra a Nissan e a Mitsubishi. A empresa afirma que Ghosn teria recebido de forma indevida mais de € 7 milhões ligados à assinatura de um contrato. Mas o franco-líbano-brasileiro afirma ter sido vítima de violação abusiva de contrato e pede uma indenização de € 15 milhões.  

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