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Polícia Violência policial Protestos

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Manifestantes criticam proibição de homenagem a jovem que morreu durante operação policial na França

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Une pancarte «Où est Steve?» dans une fontaine de Nantes, le 31 juillet 2019. LOIC VENANCE / AFP

A prefeitura de Loire-Atlantique, departamento onde fica Nantes, proibiu os manifestantes de ocuparem a maior parte do centro da cidade, onde Steve Maia Caniço, de 24 anos, desapareceu no dia 21 de junho, quando caiu no rio Loire durante uma operação policial. Seu corpo foi localizado no dia 29 de julho, um mês depois.


Desde a descoberta do corpo de Steve Maia Caniço, diversas manifestações começaram a se organizar para homenageá-lo. Mas a cidade de Nantes, no oeste da França, onde ele desapareceu, proibiu qualquer tipo de protesto em seus pontos centrais no sábado (3), temendo atividade de black blocs que poderiam cometer ações violentas contra o patrimônio público.

A prefeitura estima que existe um “risco importante de que atos violentos ocorram no centro da cidade”. Entretanto, a “marcha branca”, como é chamada esse tipo de manifestação póstuma na França, pode ocorrer nos pontos mais afastados, que não foram interditados. Os primeiros apelos à manifestação foram feitos por “coletes amarelos” e black blocs.

A página “Nantes Revoltada” publicou no Twitter uma mensagem criticando a decisão da prefeitura. “Claude d’Harcourt está bem? O prefeito, não satisfeito em destruir manifestações e jogar jovens no rio Loire, decidiu proibir a homenagem de Steve no sábado. Só isso. Até onde eles irão?”.

Em entrevista ao jornal Le Monde, a advogada da família de Steve Maia Caniço, Cécile de Oliveira, confirmou que seus próximos “não apoiam” os protestos previstos para sábado, ressaltando que eles lamentam que a morte do jovem tenha se transformado “numa questão política tão profunda”. “Eles se sentem traídos pelos apelos à violência nesse contexto”, afirmou.

No Facebook, cerca de 2500 pessoas demonstraram interesse em participar do evento. Manifestantes organizam diversas caronas de cidades francesas em direção a Nantes.

O caso gerou forte comoção na França. Em Bordeaux, 250 pessoas se reuniram em silêncio na terça-feira (30) para homenagear Steve Maia Caniço. Em Besançon, no leste da França, cinquenta habitantes se postaram diante da delegacia de polícia para pedir “justiça para Steve”. Em Toulouse, na quarta-feira (31), centenas de pessoas desfilaram com os slogans “A polícia assassina” ou “Demissão de [Christophe] Castaner”, ministro do Interior.

Parcialidade nas investigações da causa da morte

O jovem participava da Festa da Música quando o evento foi interrompido por forças policiais, que utilizaram um forte aparato de repressão. Segundo testemunhas, houve conflito com os participantes, que foram reprimidos com bombas de gás lacrimogêneo e disparos de balas de borracha.

Durante a ação policial perto do rio Loire, 14 pessoas caíram na água e o jovem teria desaparecido neste momento. O sumiço de Steve deu origem a diversas críticas à polícia, acusada de utilizar força em excesso, e às autoridades que permaneceram omissas ao caso, não empenhando o devido esforço em solucioná-lo.

O relatório da Inspeção Geral da Polícia Nacional (IGPN), responsável por investigar o caso, foi publicado no dia 30 e recebeu uma chuva de críticas na França, sobretudo por uma suposta “parcialidade”. No texto, o IGPN julga que a intervenção policial foi “justificada” e “proporcional”. Nenhuma ligação entre a operação e o desaparecimento de Steve Maia Caniço pôde ser comprovada, avaliou o documento.

Diversos membros da classe política reagiram às conclusões da IGPN. Sandra Regol, porta-voz do partido Europa-Ecologia-Os-Verdes, se disse exasperada do “desprezo” na “atitude do governo” sobre o assunto. Jean-Luc Mélenchon, líder do A França Insubmissa, sigla da esquerda radical, criticou o “regime macronista [em referência ao presidente francês Emmanuel Macron] que abriu o ciclo das violências e da politização da polícia e da justiça”.

Sébastien Chenu, porta-voz do Reunião Nacional (ex-Frente Nacional, da extrema direita), atacou o ministro do Interior. Ele denunciou a “incompetência” de Christophe Castaner e pediu sua demissão. “É um personagem limitado, não tem nenhuma visão.”