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Cansadas de serem assediadas, recepcionistas criam movimento contra o sexismo na França

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Recepcionistas da Volta da França são obrigadas a posar para fotos beijando os vencedores. Luk BENIES / AFP

O jornal Libération desta sexta-feira (16) trata do sexismo e das injustiças que vivem as recepcionistas e modelos que trabalham em eventos na França. "A lei do salto alto" é a manchete de capa do diário, que dedica suas cinco primeiras páginas ao assunto.


"Tratadas como objetos, assediadas, agredidas: recepcionistas protestam contra suas condições de trabalho", afirma Libé. Segundo o jornal, existem cerca de 600 mil recepcionistas cadastradas na França. Elas trabalham em eventos - como concertos, salões, competições esportivas - e também em empresas. A maioria delas é empregada por agências especializadas e não recebe mais do que o salário mínimo (€ 10,03/hora, cerca de R$ 45,00).

O diário dá destaque a um movimento criado pela categoria nas redes sociais, que denuncia o sexismo nesta subestimada profissão. A iniciativa partiu de Alice, recepcionista de 22 anos, que trabalha no setor para financiar seus estudos. No último mês de julho, a jovem resolveu denunciar episódios escandalosos envolvendo recepcionistas na Volta da França e criou uma conta no Twitter para recolher depoimentos.

Em pouco tempo, centenas de histórias de comportamentos abusivos de homens contra elas começaram a vir à tona. Como um frequentador em um evento de arte que afirmou a uma delas: "você é muito bonita, ficaria muito bem ao lado de meus móveis". Ou outra jovem no Salão do Automóvel de Paris que foi filmada por baixo da saia, mesmo expressando sua oposição. Em depoimento ao jornal, algumas delas também revelam histórias escabrosas, de assédio descomplexado e subestimação.

Nesta semana, Alice resolveu ir ainda mais longe e lançou uma petição online, fazendo também um apelo ao governo em prol da igualdade dentro do mercado de trabalho e por tolerância zero contra comportamentos sexistas no meio profissional. A jovem denuncia, por exemplo, a obrigação das recepcionistas da Volta da França de beijarem o ciclista vencedor e posarem para fotos ao lado dos esportistas, como se elas servissem de enfeite para os pódios.

Roupas justas e provocantes continuam sendo a regra

Para o diário, após o movimento #MeToo e a liberação de relatos de assédio sofridos pelas mulheres, a profissão registra alguns avanços, como o fim da obrigatoriedade do salto alto em alguns eventos, embora Libé saliente que as roupas justas e a maquiagem carregada ainda sejam praticamente uma regra.

"Tudo isso sob a proibição de reclamar, já que a recepcionista deve ser sempre sorridente e simpática", diz o editorial desta sexta-feira. "Essas mulheres são expostas e invisíveis, dentro de uma função de parecer, mas nunca de ser, além de condensar todos os clichês historicamente atribuídos às mulheres: ex-appeal, reconforto, mãe e prostituta", reitera.

Segundo o jornal, há uma verdadeira revolução a ser feita, pessoal e coletiva, para que os homens mudem o olhar sobre as mulheres. Para Libé, o comportamento em relação a essas recepcionistas fazem parte de situações do cotidiano em que o sofrimento e a injustiça contra mulheres continuam sendo dissimulados por sorrisos.