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Macron ouve horas de chamadas de mulheres vítimas de violência doméstica e se irrita com policial

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O chefe de Estado pôde ouvir, com fones de ouvido e sem intervir, diversas denúncia de violência doméstica ao vivo. . Yoan Valat/Pool via REUTERS

O presidente francês escolheu uma maneira simbólica para marcar o lançamento nesta terça-feira (3) de uma grande campanha nacional contra a violência doméstica, que já deixou mais de 100 vítimas na França, apenas em 2019. Incógnito e sem avisar a imprensa, ele se deslocou até o 19° distrito de Paris, sede da central de chamadas do 3919, o número especial para a denúncia de violências conjugais no país. O chefe de Estado pôde ouvir, sem intervir, chamados como a de uma mulher angustiada porque os policiais se recusavam a acompanhá-la, para que ela pudesse pegar seus pertences em casa, onde estava seu marido violento.


O deslocamento de Emmanuel Macron até a central de chamadas utilizadas por mulheres que se sentem ameaçadas por companheiros e ex-companheiros foi realizado com o máximo de discrição. O objetivo era divulgar melhor o 3919, ainda insuficientemente conhecido das mulheres francesas, e que será alvo de uma grande campanha de comunicação, que começa esta semana na França, segundo informações da imprensa francesa.

O chefe de Estado pôde ouvir, com fones de ouvido e sem intervir, diversas denúncias de violência doméstica ao vivo. Entre os vários testemunhos, três mulheres que relataram uma intensa e cansativa jornada entre policiais, juízes e associações para se libertarem de um cônjuge que as espancou; em alguns casos ouvidos pelo presidente francês, mulheres denunciavam homens que tentaram matá-las.

Emmanuel Macron concordou em ouvir as ligações sem intervir, mesmo ao ouvir um policial da força nacional teimosamente recusar sua assistência à uma mulher em perigo. Em seu pequeno escritório, Elena, que atende chamadas de mulheres em perigo há 20 anos, respondia calmamente à sua interlocutora de 57 anos, e 40 anos de casamento.

Como muitas outras, ela esperou que seus filhos crescessem para decidir deixar o marido que a agredia. Ela conta que acabou de apresentar uma queixa por violência novamente e quer voltar para sua casa, mas tem medo do marido. Esse momento costuma ser, segundo especialistas, de grande tensão e que acaba por agravar a violência do marido.

Quando Macron se irrita com a má vontade da polícia francesa

“Você está na delegacia? Você está em perigo, seu marido está em casa. Os policiais podem acompanhá-la", tranquiliza Elena. No entanto, do outro lado da linha os policiais recusam categoricamente, segundo o relato da vítima. Neste momento, o presidente francês, que ouvia a conversa se irrita e mostra descontentamento com a cabeça.

A funcionária insiste: "eles devem ajudar as pessoas em perigo". “Eles não querem”, a esposa em perigo responde. Elena lança um olhar interrogativo ao chefe de Estado e muda o ângulo de ataque. "O coronel está disposto a falar comigo? Ah não, ele acabou de sair?" Um policial pega o telefone. "Olá senhor, você pode levá-la para casa?", pergunta a atendente do 3919. “Não”, ele responde: "você precisa de uma ordem judicial, isso não está no código penal".

"Você está esperando ela ser morta?"

Macron, que não pode intervir, balança a cabeça, indignado. Elena insiste: "Mas é sua missão, ajudar os que estão em perigo, não, não, eu não quero te ensinar seu trabalho ... Esta senhora está ameaçada de morte, você está esperando que ela seja morta? Não, eu não estou surda!”, finaliza a atendente, em vão. Irritado, o presidente francês pediu uma caneta e escreveu argumentos que poderiam convencer o policial, que não cede. “Está com má-vontade”, finaliza a funcionária, enquanto direciona a vítima a uma outra associação. Relatos contam que Macron riu do que chamou de “eufemismo”.

“Isso acontece sempre?”, perguntou Macron à Elena, a atendente do 3919. “É cada vez mais frequente”, responde ela. “Ele não foi agressivo”, diz o presidente francês sobre o policial, “mas acho que é um problema de formação e de percepção do perigo”, finalizou.

Número de denúncias por telefone pode subir de 250 para 2.000

Macron foi recebido por Françoise Brié e Dominique Guillien, respectivamente a diretora-geral e a presidente da Federação Nacional de Solidariedade da Mulher, que fundou e gerencia essa plataforma desde 1992. Os cerca de 20 funcionários da central de chamadas 3919 direcionam as mulheres que se sentem em perigo ou ameaçadas para serviços ou associações locais apropriadas para ajudá-las a encontrar acomodações de emergência.

Graças ao destaque dado pelo governo com a campanha, o centro, que recebia em média 250 ligações por dia, contabiliza na manhã desta terça-feira 220 ligações nas duas primeiras horas, e espera receber 2.000 até o final do dia. Antecipando esse influxo, o governo alocou € 120.000 adicionais, após os € 120.000 investidos no ano passado, para permitir que a central recrutasse vários funcionários e atendentes adicionais.