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Revista Vesta discute os desafios das adoções que “não dão certo”

Por Maria Paula Carvalho

A adoção no Brasil é o tema do primeiro número da Revista Acadêmica Vesta. O assunto, que mexe com as ambições de muitas famílias, foi estudado por pesquisadores de vários países. A RFI conversou, em Paris, com Jean-Marc Bouville, professor em Ciências Sociais e editor da publicação.

Para assistir à entrevista na ítegra, clique no vídeo abaixo.

Vesta reúne uma série de artigos científicos de profissionais do Brasil e do exterior para traçar um quadro atual da situação da adoção, ato jurídico de acolher uma criança numa nova filiação. Um dos desafios desse processo é conciliar uma medida legal com um encontro afetivo na chegada desse menino ou menina ao novo lar.

“A lei no Brasil estabelece um protocolo especial, eu diria único, de que a adoção deve ser afetiva, ou seja, a adoção é usada como medida para tratar de crianças maltratadas ou que têm problemas em suas famílias de origem e vivem em abrigos”, explica.

“Diferentemente da França, no Brasil a adoção passa por um estágio de convivência para o estabelecimento de um vínculo afetivo entre os pais e o possível filho”, compara Bouville.

A proposta para esse primeiro número da Revista Vesta é tratar de uma questão difícil: e quando a criança adotada não corresponde? Como lidar com a desilusão entre a criança sonhada e a criança da realidade, que ocupa o tempo, a energia, a vida psíquica dos pais? Jean-Marc Bouville lembra que esse período de adaptação pode não ser suficiente para resolver problemas futuros.

“Durante esse estágio, cada um faz um esforço muito grande para conhecer o outro. Mas na vida cotidiana, sobretudo na adolescência, poderão emergir questões graves, como a curiosidade do filho adotivo pela sua família biológica”, cita.

Enfrentando o passado

Inúmeras vezes, ouvimos dizer que o que importa é o afeto e que "pai e mãe é quem cria". Porém, segundo alguns especialistas em adoção, a família de origem, mesmo se considerada negligente ou que tenha deliberadamente aberto mão do exercício da parentalidade, é parte integrante da história da criança e deve ser valorizada e reconhecida.

“Há duas correntes diferentes sobre esse tema”, explica Bouville. “De um lado há aqueles que dizem que depois da adoção a família de origem não tem mais importância e, de outro, aqueles que defendem a necessidade de políticas públicas para ajudar as famílias em dificuldade para a reinserção dessa criança na família biológica”.

A revista destaca a necessidade de políticas de acompanhamento de famílias em dificuldades, de proteção à infância e à adolescência, assim como a formação de profissionais, reunindo um conteúdo rico que permite a transmissão de experiências e a consolidação de instituições que atuam nesse segmento.

Crianças com traumas

Muitas vezes, o sonho de formar uma família se confronta com uma realidade diferente. O convívio pode ser mais difícil para os pais que se engajam na adoção de crianças mais velhas e, sobretudo, vítimas de abusos sexuais ou de violências graves na primeira infância.

“Nesses casos, é preciso uma política pública de ajuda psicológica de longa duração. Mas o problema do Brasil é que a assistência é por tempo limitado. No caso da proteção à infância, um serviço de psicologia poderia acompanhar uma criança durante anos”, acredita.

O texto da professora e psicóloga Andrea de Melo Amaral estuda processos de casos de devolução em adoções na Vara de Infância, Juventude e Idoso do Rio de Janeiro. Em seu artigo, a autora identificou que o “comportamento da criança” foi apresentado como justificativa dos adotantes para a devolução em 60% dos casos.

“O amor parental não pode ser narcísico. Se você tem um filho para o seu bem-estar, a realidade vai mostrar que a criança é um ser totalmente à parte e que tem a sua liberdade”, afirma o professor.

“Praticar a devolução significa que o filho sonhado não serve e que os pais podem trocar por outro ou desistir da adoção. Mas imagine a dor para essa criança de ser rejeitada novamente”, completa.

Adoções internacionais

A revista ainda aborda alguns aspectos do que se passa em outros países, tendo como ponto central o que acontece quando crianças brasileiras são adotadas por famílias estrangeiras.

A psicóloga Cláudia Cabral compartilha sua experiência nos processos de adoção internacional desde os anos 1970, reencontrando crianças adotadas na Suíça, nesse período, agora adultos e integrados no seu país de adoção. A autora escreve sobre as condições necessárias para melhorar o processo de adoção internacional.

“Em geral são histórias que acabaram bem e, em alguns casos, o adulto que foi adotado volta ao Brasil. Mas há também casos em que esse adulto se comporta muito mal”, relata Bouville. “Acreditamos que o período das adoções internacionais ficou no passado. Foi uma ilusão dos países desenvolvidos de adotar crianças do mundo. Mas agora sabemos que é melhor que a criança seja adotada no seu país de origem”, completa.

Muitos adultos brasileiros adotados por famílias francesas, por exemplo, almejam encontrar suas famílias de origem. Mas as barreiras são numerosas. Apenas alguns deles praticam a língua portuguesa, o que dificulta os encontros com as administrações brasileiras competentes.

Adoções por casais homossexuais

A revista traz ainda uma entrevista com o psicanalista Nazir Hamad, francês de origem libanesa, bastante conhecido do público brasileiro. Ele fala sobre a diferença entre o amor por uma criança e o desejo de ser pai e mãe.

“O amor parental é aquele por uma criança que vai se tornar um adulto independente. Se os pais entendem isso, normalmente não há problemas na adoção. Já os pais que querem realizar os seus próprios desejos podem ter problemas”, diz.

Bouville também aborda o tema das adoções feitas por casais homossexuais. “As adoções homoafetivas são bastante raras no mundo da psicanálise, sobretudo francesa. Existe uma prudência por parte dos psicanalistas sobre isso”, afirma. “Segundo Nazir Hamad, se o casal aceita que existe a diferença dos sexos e que existe uma parte masculina e outra feminina na humanidade e que uma criança é fruto disso, não há problema. Mas se, ao contrário, existe a negação disso e o casal acha que tudo é possível apenas com um sexo, haverá problemas futuros para a criança”, conclui.   

 

 

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