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França Mediator Anfetamina Saúde Justiça

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Começa julgamento do caso Mediator, anfetamina vendida durante décadas que matou mais de 2 mil pessoas na França

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A médica francesa Irene Frachon mostra uma caixa de Mediador durante o início do processo penal do caso, no tribunal de Nanterre, perto de Paris, em 14 de maio de 2012. REUTERS/Charles Platiau/File

Nove anos depois do escândalo do medicamento para diabetes Mediator, começou nesta segunda-feira (23) o julgamento dos laboratórios Servier e da Agência Nacional de Segurança Medicamento da França no Tribunal de Grande Instância de Paris. O remédio derivado de anfetanima foi produzido e comercializado durante 33 anos, apesar das doenças e das milhares de mortes que ocasionou.


“Em 2007, meu médico receitou o Mediator, afirmando que eu tinha um começo de diabetes. Ele me disse: ‘é melhor prevenir do que curar’. Eu tomei esse remédio durante dois anos e, em 24 de janeiro de 2009, eu não conseguia mais respirar, meu coração estava cheio de problemas e tive que operar. O cirurgião me disse que eu tinha 50% de chance de sobreviver”, conta a aposentada francesa Michèle Jetot, de 73 anos, à RFI.

Michèle é uma das 5 milhões de pessoas na França que utilizou o Mediator do ano em que começou a ser comercializado, em 1976, até ser proibido, em 2009. O remédio era utilizado contra o excesso de colesterol e de triglicerídeos, no tratamento de diabetes do tipo 2 e também como inibidor de apetite. Seu princípio ativo, o Benfluorex, derivado de anfetaminas, é acusado de ter provocado graves lesões nas válvulas cardíacas e hipertensão arterial pulmonar, doença grave e mortal, em milhares de pessoas.

Três quartos das vítimas do Mediator são mulheres, que apresentam os mesmos efeitos colaterais: cansaço, problemas para respirar, além de distúrbios das funções cognitivas. Nenhuma delas poderia imaginar que os sintomas seriam muito mais graves e afetariam suas vidas de forma irreversível, muitas de forma fatal. É o caso de Pascale Sarolea, morta aos 51 anos de uma valvulopatia fulminante, em 8 de março de 2004 em Antibes, no sul da França.

“Escutei um barulho no segundo andar da casa. Subi correndo as escadas e descubri minha mãe sem poder respirar, com uma espuma branca saindo de seu nariz e de sua boca. Meu pai, desesperado, chamou os bombeiros. Isso durou quinze minutos. Quinze minutos de ansiedade que terminaram com a morte de minha mãe. Eu ouvi seu último suspiro. Os bombeiros tentaram uma reanimação durante 45 minutos, mas ela já havia morrido. No dia seguinte, ela deveria me levar na faculdade. Mas não houve dia seguinte”, conta sua filha, Lissa Boussinot, em entrevista à rádio FranceInfo.

Pascale Sarolea tomou o Mediator durante todo o ano de 2003, depois que um endocrinologista receitou o remédio para tratar uma hipertrigliceridemia. No entanto, desde 1990, autoridades sanitárias alertavam para os perigos do Benfluorex, substância derivada de anfetamina proibida em 1997 nos Estados Unidos, em 1998 na Suíça, em 2003 na Espanha e em 2004 na Itália. O Isomeride, outros inibidor de apetite também produzido pelo grupo Servier, já havia sido proibido na França em 1997.

Alguns usuários do Mediator o utilizaram durante anos. Corinne Hollander, de 59 anos, queria emagrecer e tomou o remédio ao longo de uma década. Com o mesmo objetivo, Dominque Boussinot, de 68 anos, recorreu ao comprimido, em 1997 e 1998. Já Lucile Lefèvre, de 68 anos, o utilizou no tratamento contra o diabetes. As três fazem parte das centenas de vítimas que testemunham a partir desta segunda-feira em um processo previsto para durar até 30 de abril de 2020.

Jean-Pierre Lafée, marido de uma das vítimas fatais do Mediator. REUTERS/Charles Platiau

Segunda maior farmacêutica da França no banco dos réus

No banco dos acusados deste caso que chocou a França estão o grupo farmacêutico Servier, nove de suas filiais e a Agência Nacional de Segurança Medicamento da França (ANSM). O segundo maior laboratório e a maior instituição reguladora de remédios do país são acusados de fraude, propaganda enganosa, ferimentos e homicídios involuntários por "violações deliberadas".

Diante deles, advogados que representam milhares de vítimas, para quem não há dúvidas sobre a intenção da empresa de enganar os usuários sobre os riscos do medicamento, apesar da multiplicação de casos de valvulopatias e hipertensão arterial pulmonar oficialmente associados ao Mediator a partir de 1999. Dez anos se passaram até que a ANSM proibisse o remédio.

Para um dos advogados de defesa, Charles Joseph-Oudin, a agência demorou para agir, “certamente em favor dos membros da instituição que tinham interesses nos negócios do laboratório Servier”. Em entrevista à RFI, ele afirmou qual é a principal expectativa das vítimas.

“O grosso do processo é compreender qual foi a falha que permitiu que o Mediator permanecesse no mercado durante tantos anos, principalmente depois de 1999. Há um jogo muito sutil: entre o laboratório Servier, que faz manobras para que seu medicamento permaneça no mercado, e autoridades do setor da saúde, pouco rigorosas e que agiram em favor do laboratório. Por isso, para as vítimas, é essencial determinar de quem é a responsabilidade”, afirma.

Arrogância do grupo Servier

A imprensa francesa também apoia as vítimas. O jornal Le Parisien desta segunda-feira acusa o grupo Servier de "arrogante”, cuja atitude de seus dirigentes “chocou do início ao fim do escândalo”, afirma em editorial.

“Durante anos, Servier fez de tudo para atrasar o processo judicial, se recusou a distribuir indenizações, não foi transparente, ignorou os doentes, intimidou os envolvidos, sem falar na personalidade de seu fundador… Tudo foi odioso”, critica o jornal.

De fato, Jacques Servier, médico fundador do laboratório que transformou em multinacional, utilizou uma principal estratégia para gerenciar o escândalo: a negação. Segundo ele, a maioria das vítimas fatais já sofria de valvulopatia antes de falecer.

Em 2010, em entrevista ao jornal Le Monde, Servier chegou a colocar em dúvida a veracidade das acusações contra sua empresa. “Precisamos nos perguntar se tudo não passa de uma invenção”, afirmou. Para ele, a repercussão midiática do caso foi “desproporcional”.

O depoimento do principal protagonista do escândalo, no entanto, não será ouvido. Servier morreu em 2014, aos 92 anos, frustrando milhares de vítimas que “gostariam de ouvir suas explicações no tribunal”, afirma o advogado Jean-Christophe Coubris, que representa 1.650 pessoas no caso.

Jacques Servier, o fundador do laboratório que produzia o Mediator, faleceu em 2014. REUTERS/Philippe Wojazer

A moça de Brest

O escândalo do Mediator só veio à tona, em 2008, graças à denúncia e ao combate da pneumologista francesa Irène Frachon. Em 2007, a médica do Centro Hospitalar de Brest, no noroeste da França, percebeu a repetição de lesões cardíacas em pacientes que usavam o medicamento e iniciou uma pesquisa sobre o caso.

Além de publicar um livro em que conta seu combate para que o Mediator deixasse as prateleiras das farmácias, a história de Frachon também foi adaptada para o cinema. Em “La Fille de Brest”, traduzido no Brasil para “150 Miligramas”, a diretora Emmanuelle Bercot leva a coragem e a luta da pneumologista para as telonas.

Em entrevista à RFI, Frachon classifica o medicamento como “um veneno” e denuncia a negligência das autoridades. “Fechou-se os olhos de maneira inexplicável durante mais de 30 anos a um produto que, na verdade, já era suspeito, ao menos 12 anos antes de sua proibição, de ser tóxico”, diz.

A médica continua até hoje trabalhando no Centro Hospitalar de Brest e diz que o caso em nada modificou sua relação com os pacientes. Em contrapartida, afirma que atualmente sua atenção no momento de receitar um medicamento é redobrada.

Frachon é uma das testemunhas-chave do caso do Mediator. Para ela, seu depoimento também acontecerá em respeito às vítimas que assinaram um contrato junto aos laboratórios Servier que os impede de testemunhar sobre o escândalo em troca de uma indenização.

Irène Frachon, pneumologista que denunciou os riscos do Mediator. REUTERS/Charles Platiau

Após a publicação desta matéria, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (Anvisa) confirmou à RFI que o medicamento Mediator e a substância Benfluorex não possuem registro no Brasil. Nenhum dos dois foi jamais comercializado no país.