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Marina Silva diz que Brasil favoreceu lógica ambiental americana na Rio+20

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A senadora Marina Silva concede entrevista coletiva para falar da atuação do PV no segundo turno das eleições presidenciais José Cruz/ABr

No comando das negociações da Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio+20, o Brasil favoreceu a adoção de uma lógica americana nas negociações de meio ambiente, a de deixar cada país agir conforme suas próprias avaliações. Esta é a conclusão da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, em entrevista à RFI, para quem o evento marcou "um retrocesso".


Marina acompanhou de perto a conferência, encerrado nesta sexta-feira no Rio de Janeiro. Desta vez, a ex-senadora não participava como membro do governo, mas suas opiniões sobre a preservação do planeta interessaram até ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, que a convidou para participar de uma mesa redonda ao lado de Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz em 2006, do economista e professor Jeffrey Sachs e do empresário Ted Turner. Por telefone, ela concedeu a seguinte entrevista:

Que balanço você faz da Rio+20 ?
Tem uma unanimidade de que o resultado é muito aquém do desafio que nós temos pela frente. O documento é totalmente anódino e não traz aquilo que era a expectativa de todos. Se pelo menos saíssemos daqui com uma decisão voltada para uma governança forte, com os organismos vinculados às Nações Unidas para a implementação e a articulação da agenda do desenvolvimento sustentável, ou os mecanismos para o financiamento das ações, o fundo, que inicialmente começou com 100 bilhões de dólares, depois 30, e mesmo os 30 bilhões foram adiados... É um processo que no meu entendimento está esvaziando a ideia do multilateralismo para tratar da crise ambiental global. Ao estabelecer que, a partir de agora, são objetivos genéricos que cada país fará os esforços para a sua implementação de acordo com os seus interesses e as suas prioridades, você tira a potência de um esforço integrado. No meu entendimento, temos um retrocesso, que é o de prevalecer a tese americana, russa, indiana, chinesa, de que os interesses de cada país se sobrepõem ao interesse da humanidade, de salvar o planeta.

O Brasil foi muito criticado como negociador, sobretudo pela união europeia. Ficou a impressão de que o Brasil se alinhou à postura americana, em detrimento à europeia, que é de vanguarda nas questões de meio ambiente. Qual a sua avaliação?
Eu acho que favoreceu os interesses americanos. A tese vitoriosa é de haverá esforços de cada país isolado, no máximo parcerias bilaterais. Isso é o que os americanos fazem há 20 anos, no discurso e na prática. Os russos, os indianos e os chineses não falavam no discurso, mas faziam na prática. E o Brasil, que sempre privilegiou a ideia de multilateralismo, junto com a União Europeia, desta vez se descolou completamente dessa agenda e cedeu a essa tese. Para mim, isso foi o mais grave de tudo: ceder a essa tese de que cada um vai fazer de acordo com a sua própria lógica nos objetivos para o desenvolvimento sustentável. Na verdade, uma questão dessa magnitude precisa de um esforço integrado, coordenado, e com compromissos que sejam assumidos por todos. A economia de baixa emissão de carbono não vai acontecer sem alguns mecanismos que levem a colocar um preço nos produtos que tenham intensidade maior de carbono. Se cada um pode fazer o que quer e do jeito que quer, não há como você estabelecer critérios em que todos estejam comprometidos com resultados. Desta forma, se cria uma assimetria econômica que inviabiliza o processo. Para fazer economia de baixo carbono, é preciso investimentos, pois obviamente tem custos.

Nestas reuniões de meio ambiente, as ações concretas são sempre prorrogadas, o que mais uma vez ocorreu. Dava para esperar uma Rio+20 melhor do que foi?
O processo de 92 tinha uma particularidade que era a de emitir um alerta forte da comunidade científica exigindo medidas urgentes. Há 20 anos, já havia uma mobilização da opinião publica internacional, mas hoje essa mobilização é incomparavelmente maior. Mas 20 anos depois, a gente tem a comunidade cientifica se eximindo do processo de desenvolvimento sustentável, e ao mesmo tempo uma indiferença ao apelo político e social da opinião pública quanto a medidas concretas. As medidas vão ficando cada vez mais exíguas, mais anódinas. Aquilo que pautou a Rio 92, desta vez foi esmaecido. Eu diria até que a Rio 92 alavancou um processo multilateral de diferentes países e governos, compromissos que agora saem enfraquecidos. Tem uma nova lógica que se estabeleceu e foi operada pelo Brasil.

O que se viu foi uma insatisfação generalizada em torno das decisões da Rio+20. A senhora acha que sai algo positivo da conferência?
Tenho dito que nós não temos tempos para uma transição demorada, que é o que eles estão propondo, e nem temos como fazer uma ruptura. Não se muda o modelo de desenvolvimento da noite para o dia. Tem um esforço de médio e longo prazo que precisa ser feito de forma continuada. O que eu vejo é que a sociedade volta para casa com uma sensação de desamparo por parte dos seus governantes. Mas por outro lado, eu vejo a esperança de um esforço civil para promover uma espécie de mutação. Se não há espaço para ruptura nem para uma transição demorada, só mesmo com uma mutação. De positivo, temos essa mobilização intensa de sociedades, cientistas, jovens, empresários, prefeitos. É isso que, no meu entendimento, foi devolvido para a sociedade: nós não vamos fazer, então cabe à sociedade fazer essa “mutação possibilitadora”, como eu chamo, que é quando você mesmo altera o organismo.