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Em entrevista, Assange critica totalitarismo transnacional

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Fachada da embaixada equatoriana em Londres tem cartaz de apoio a Julian Assange e dezenas de policiais Reuters

“Estamos caminhando para um sistema internacional de leis arbitrárias, orquestrado por complexos grupos internacionais”. Com este alerta, Julian Assange encerra sua entrevista ao jornalista Jorge Gestoso, veiculada nesta quinta-feira pelo canal Telesur. As quatro partes da entrevista em espanhol estão disponíveis no YouTube e ao fim desta matéria.


O fundador do Wikileaks está sob asilo político, refugiado dentro da embaixada do Equador em Londres desde 17 de junho. Vigiado por todos os lados (“tem polícia até no banheiro”), Assange não está na mais confortável das situações: tem um alerta vermelho da Interpol sobre sua cabeça, enfrenta um processo por abuso sexual na Suécia e vive às voltas com ameaças de morte de altos funcionários de diversos governos.

Mike Huckabee, por exemplo, pré-candidato republicano às eleições de 2008, diz em 2010 que “qualquer coisa menor do que a execução é uma pena leve” para Assange. Na mesma época, o ex-assessor do Primeiro Ministro do Canadá, Stephen Harper, segue a mesma toada: “Creio que Assange deveria ser assassinado”. Mitch McConnell, líder do Partido Republicano no Senado dos Estados Unidos: “Creio que o homem é um terrorista e deve ser acusado formalmente com todo o peso da lei. Se isso é um problema, precisamos mudar a lei”. Um comentarista da Fox News pede elegantemente o assassinato deste “FDP”.

Assange ouve essas e muitas outras ameaças impassível. Tem até um sorrisinho no canto da boca quando soma mais algumas à lista. “A gente se acostuma a tudo”, diz. “O que estamos sofrendo é pequeno perto do que estamos fazendo”.

Vale sua vida?, pergunta o entrevistador. “Sim, mas não acho que ninguém deva ser mártir”. Falando sempre no plural, o criador do Wikileaks se diz parte de um movimento de gente comprometida com os direitos humanos, que não usa isso para fazer propaganda. E conclama todos a enfrentar o que chama de “avalanche de totalitarismo transnacional”, um conluio de empresas e governos que monitora, rastreia e elimina ameaças humanas ao redor do mundo.

"Google te conhece melhor do que sua mãe"
“Militares estadunidenses estão lançando ataques no Iêmen e Obama autoriza estes ‘signature strikes’, ataques com aviões não tripulados a pessoas que ‘precisam ser assassinadas’. Para isso, é necessário conhecer essas pessoas”. Como? Pela vida digital. Assange garante que o Google, empresa sediada nos Estados Unidos, te conhece melhor do que a sua mãe.

“Toda informação que transita na internet é indiscriminadamente interceptada pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Quando você se torna interessante, eles dizem: ‘vejamos o que ele estava fazendo há dois anos. Quem são seus amigos, com quem ele se relaciona?’ É mais barato interceptar tudo do que selecionar”.

Para um indivíduo, Assange garante que é virtualmente impossível se proteger do controle deste “Estado Transnacional Centralizado”, como ele define. Mas acredita que a os países latinoamericanos têm potencial para reduzir o impacto da espionagem estadunidense na região. “Quiçá os blocos começassem a encriptar as informações que passam pelos Estados Unidos”. Para Assange, isso seria um bom começo. Por enquanto, todos estamos tão vigiados quanto ele. A diferença é que ainda não nos tornamos “interessantes”.