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Assassinato Pussy Riot Rússia Vladimir Putin

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Padre que defendeu Pussy Riot é assassinado na Rússia

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O padre Pavel Adelgueim, que foi encontrado morto a facadas gazeta.ru

O assassinato de um padre de 75 anos causou comoção na Rússia nesta terça-feira. Pavel Adelgueim era uma das mais ativas vozes críticas no seio da Igreja Ortodoxa e um dos defensores da banda punk Pussy Riot. Mas, de acordo com a polícia, as posições políticas não tiveram relação com o homicídio.


De acordo com os investigadores, ele foi morto a facadas perto da igreja na qual atuava por um deficiente mental de 27 anos, que ele havia acolhido havia três dias. "Ele gritou que Satã o havia enviado para matar o padre e esfaquear seu peito", relatou uma testemunha ao jornal Gazeta.tu. Ele foi hospitalizado depois de perfurar o próprio corpo com a mesma arma.

"O último padre livre do Patriarcado de Moscou foi morto", escreveu em seu blog o arquidiácono Andrei Kouraiev, um dos mais famosos comentaristas da Igreja Ortodoxa russa. "Pavel Adelgueim nunca teve medo de se levantar contra o sistema", comentou o especialista em religião Roman Lukin. De sua parte, o Patriarcado de Moscou se limitou a dizer que lamenta a morte trágica do padre e reza pelo descanso de sua alma.

Apesar de ser um dissidente importante desde a época da União Soviética, o padre Adelgueim se notabilizou em junho de 2012 ao se unir a centenas de personalidades russas que exigiam que o Patriarcado e a sociedade defendessem as cantoras do Pussy Riot condenadas a dois anos de trabalhos forçados por fazer uma "oração punk" na catedral moscovita do Cristo Salvador.

O abaixo assinado dizia não querer "justificar o ato dessas pessoas", mas "apelar à sua sabedoria e caridade". Dentro do templo, as moças denunciaram o casamento entre a Igreja e o Estado e rezaram para a Virgem "caçar" o presidente Vladimir Putin. Em seu blog, o padre Pavel Adelgueim disse recentemente concordar com o ponto de vista do Pussy Riot: "Essas mulheres colocaram em evidência a mentira da Igreja Ortodoxa russa e sua ligação pouco natural com a Federação", escreveu. E se opôs à "crueza" e "estupidez" de sua condenação.

Nascido em uma família da minoria alemã na Rússia, Pavel Adelgueim cresceu em um orfanato, já que seu pai foi executado e a mãe enviada a um gulag sob o stalinismo. Aos 13 anos, ele decidiu entrar para a vida religiosa e, desde que foi ordenado em 1984, passou a fazer forte oposição ao regime ateu. Foi preso em 1969 por distribuir panfletos religiosos e condenado, no ano seguinte, a três anos de trabalhos forçados por construir uma Igreja no Uzbequistão soviético. Em um acidente no Gulag, perdeu uma das pernas.

Com a queda da União Soviética e a volta do poderio da Igreja Ortodoxa, ele se tornou um dos maiores críticos da simbiose entre religião e política. Em 2002, ele publicou sua "Doutrina sobre a Igreja", em que denunciava a onipotência dos bisbos e atacava a "ditadura" do Patriarcado, que "envia os padres mais ilustres aos cantos mais afastados da Rússia, onde eles não têm rebanho". Após a publicação, ele foi distituído de duas paróquias em Pskov.

"O padre Pavel não era um reformador. Ele falava simplesmente de sua própria experiência e queria ampliar o debate, coisa que até hoje não aconteceu", lamentou o especialista Andrei Desnitski no site Gazeta.ru.