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Com pico de poluição, França volta a questionar opção pelo diesel

Por Lúcia Müzell

A cada vez que a França sofre com picos de poluição, uma escolha industrial dos anos 60 volta a ser questionada, desta vez às vésperas das eleições municipais no país: a opção pelos veículos a diesel. Nas ruas de Paris ou qualquer grande cidade, 61% dos carros e ônibus são movidos a esse combustível, o maior poluidor de todos. E apesar da consciência do problema, os franceses têm dificuldades em reverter a situação - em 2013, nada menos do que 67% dos carros zero vendidos eram abastecidos a diesel.

Na última semana, a França sentiu mais uma vez as consequências. Condições climáticas atípicas, com noites frias, dias quentes e baixa umidade, fizeram a poluição estacionar sobre a capital, chegando a apagar a torre Eiffel da paisagem. A produção industrial, a queima de madeira e combustíveis para o aquecimento das casas e a circulação de veículos são as principais emissoras de poluentes. O fenômeno se torna visível quando acontece formação de poluentes secundários, como explica o pesquisador da USP Paulo Saldiva, médico e um dos maiores especialistas em poluição atmosférica do Brasil.

“Como os compostos emitidos pelo cano de escapamento ficam parados no ar, a chance de uma molécula encontrar outra é maior, assim como a chance de aquele poluente ser atingido por um raio ultravioleta. Consequentemente, você começa a gerar novos compostos, e alguns gases grudam na partícula, gerando uma conversão de gás para partícula”, afirma. “Isso provoca a redução da visibilidade e, consequentemente, aumenta a concentração de poluentes nos nossos pulmões.”

Preço menor

O francês gosta tanto dos carros a diesel por uma razão simples: esse combustível pesa menos no bolso dos motoristas. Para relançar a indústria automobilística nos anos 60, o governo adotou incentivos fiscais para o diesel, que tem melhor rendimento. Até hoje, esse combustível custa cerca de 20 centavos de euro a menos por litro do que a gasolina.

“Eles são veículos com uma resistência mecânica maior, são mais econômicos, e embora tenham motor a explosão, cujo desenvolvimento tecnológico básico foi feito na segunda metade do século 19, ele emite menos gases de efeito estufa, porque tem uma eficiência energética maior, ou seja, consome menos”, diz Saldiva. Os veículos a diesel liberam de 15 a 20% a menos que os demais, à exceção dos elétricos. “Mas em contrapartida, ele emite mais poluentes de ação local. É o maior emissor entre os veículos de motor a explosão, e é sabidamente carcinogênico.”

As proporções em jogo não podem ser ignoradas. Os motores a diesel soltam entre 8 a 10 vezes mais partículas finas do que os a gasolina, e entre 3 a 8 vezes a mais de óxido de azoto (NOx), um dos gases mais poluentes despejados no ambiente.

“São partículas mais grossas liberadas na combustão, as famosas PM10, inferiores a 10 mícrons. É óbvio que a gasolina também libera partículas, mas as de diesel são maiores, e criam aglomerações”, observa Jean-Louis Colin, pesquisador sobre poluição atmosférica e diretor do mestrado de Ciências do Meio Ambiente da Universidade Paris 7 - Diderot.

Mudança forçada

Apesar de não haver sinais de uma nova política industrial no setor, a mudança dos hábitos pode acabar sendo forçada pelas novas regras ambientais, mais rígidas, adotadas pela União Europeia nos últimos anos. Primeiro, passou a ser exigido o uso de filtros de partículas mais eficientes. O segundo passo é esperado para setembro deste ano, quando os novos motores precisarão ser modificados para emitir menos NOx, um gás que não pode ser filtrado. A nova norma vai autorizar 80 mg/km, menos da metade dos 180 mg/km atuais.

A situação obriga a indústria automobilística europeia a investir pesado no desenvolvimento de carros menos poluentes, e o resultado são veículos mais caros. Por isso, a expectativa do Comitê de Fabricantes Franceses de Automóveis é de que a dependência do diesel caia para 50% a partir de 2020.

“Se há bons filtros instalados, eles podem evitar que tantas partículas sejam emitidas. São sistemas bem complexos e que progrediram muito. Os construtores se esforçaram mesmo”, considera Colin. “Mas o problema é que o que há em circulação não são apenas veículos novos, principalmente os caminhões”, lembra.

Questionado sobre o tema nos últimos dias, o governo francês se limitou a afirmar que uma mudança nas políticas fiscais para o diesel “não é uma prioridade” neste momento.

 

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