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Torcedores consideram seus times como exércitos nacionais que têm que vencer

Por Alfredo Valladão

Antigamente o futebol era só um jogo. Nem esporte era. Depois vieram os clubes com suas torcidas bairristas. Uma pitadinha de política começou a aparecer com os times considerados campeões dos pobres e outros dos ricos. Mas até aí era tudo muito local, quase municipal. Nada novo: já no Império Bizantino, no século V, os enfrentamentos políticos passavam pelo Hipódromo e as facções das corridas de bigas, verde para os populares, azul para os aristocratas.

Com o aparecimento dos campeonatos nacionais, a competição passou a ter uma ressonância para o país inteiro, cidades contra cidades. Foi preciso profissionalizar os jogadores e organizar o que virou um esporte, com suas regras e treinos.

Futebol e exaltação patriótica

Foi essa dimensão nacional que começou a ser instrumentalizada pelos políticos. Os primeiros campeonatos do mundo organizados antes da Segunda Guerra mundial foram os primeiros ensaios para transformar o futebol em exaltação patriótica, sobretudo por parte dos regimes ditatoriais que iriam suicidar a Europa na pior catástrofe bélica de todos os tempos.

Mas não foram só os políticos. Surgiram também os cartolas e os negócios. Havia muito dinheiro rolando, na Europa e na América Latina, num esporte que tinha conquistado o coração de milhões de torcedores fanáticos. Os clubes se transformaram em empresas e a cartolagem montou um esquemão internacional, independente dos governos, para controlar e administrar essa gigantesca fonte de renda e de prestígio.

A FIFA decolou. A possibilidade de mostrar os jogos pela televisão foi um fator decisivo: o futebol encontrou um público global e consolidou o patriotismo esportivo. Globalização do jogo junto com nacionalismo escancarado.

Hoje, fora das Copas, a cada quatro anos, o futebol de qualidade são grandes clubes ultra profissionais, com times feitos com jogadores que vêm do mundo inteiro e salários milionários.

Qualquer lugar do planeta está cheio de torcedores do Barça, do Real Madrid, do Inter de Milão, do Bayern ou do Manchester United. Fora os joguinhos de sempre dos campeonatos nacionais, quem gosta mesmo, segue assiduamente os campeonatos espanhol, inglês, italiano ou alemão.

 “Histerização” dos hinos nacionais

Os mais ricos, mais sofisticados, com os esquemas de jogo mais avançados e os melhores jogadores do mundo. A globalização do futebol é um antídoto ao chauvinismo esportivo. Só que para poder existir, essa globalização também precisa de uma estrutura administrativa global que defina as regras desse jogo global.

E também de um evento global para manter a máquina rolando. João Havelange foi o astuto presidente que globalizou a FIFA e que abriu o caminho para transformar as Copas em imensas confrontações entre nações, engolfando mais de um bilhão de pessoas no mundo.

Agora, as multidões de torcedores consideram o time de casa quase como um exército nacional, cujo único objetivo é vencer a qualquer custo, nem que seja por “meio gol” como disse o Neymar. Jogo bonito, espetáculo, esporte: tudo isso é secundário comparado com a obrigação de sair vitorioso.

Vitória da Alemanha foi vista como reflexo da economia do país

Histerização dos hinos nacionais, cantados fervorosamente “a capela” e de olhos fechados: o jogadores são vistos como representantes não só de um esporte mas de toda a vida da nação. Não é por acaso que a vitória da Alemanha na Copa foi vista como reflexo dos sucessos da economia e da sociedade alemães, que conseguiu tirar de letra a crise dos últimos anos graças à capacidade de olhar para os erros e decidir concertá-los, mesmo à custa de pesados sacrifícios.

O time alemão é um time de verdade, organizado, disciplinado, que vem jogando junto há vários anos com táticas e estratégias claras. O que não foi o caso das equipes europeias dos países em crise: Inglaterra Espanha, Portugal ou Itália. Enquanto o Brasil, com um escrete inventado na última hora, insistia num jogo antiquado que já foi brilhante mas não dá mais resultado, como o nosso modelo econômico e político.

Aliás, muitos times latino-americanos apostaram num jogador providencial que devia salvar a pátria numa jogada de gênio: Messi, Neymar, Suarez....ou o Portugal de Cristiano Ronaldo. Todos perderam, como seus próprios países que também vão mal. Não tem jeito: se quiserem sobreviver nesse mundo globalizado, está na hora de mudar o jogo.

Clique no ícone acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

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