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Proibição de manifestações pró-palestinos cria tensão entre judeus e árabes na França

Por Daniella Franco

A proibição das manifestações pró-palestinos em Paris resultou em uma forte tensão entre duas importantes comunidades na França: os judeus e os árabes. A tentativa do governo francês de reprimir os protestos não impediu a realização de dois atos no último fim de semana, nos dias 19 e 20 de julho, que terminaram em violência e vandalismo. Alguns partidos políticos e organizações culpam o governo francês de incitar a revolta proibindo os protestos. No resto da França, onde os atos estão autorizados, as manifestações acontecem de forma pacífica.

O governo rebate a acusação alegando que a razão da proibição é a atitude agressiva e antissemita de certos manifestantes. Na primeira manifestação parisiense, no dia 13 de julho, algumas pessoas foram protestar na frente de uma sinagoga.

No último sábado, o ato proibido terminou em violentos confrontos com a polícia e 13 prisões em Paris. Um dia depois, em Sarcelles, subúrbio da capital, alguns manifestantes queimaram carros, tentaram invadir uma sinagoga e depredaram lojas judaicas.

“Quando os manifestantes se manifestam diante de uma sinagoga ou atacam uma loja porque ela é de um proprietário judeu, comete-se um ato antissemita”, declarou, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, na segunda-feira (21), completando que violências como as de domingo nunca haviam acontecido em Sarcelles. “As pessoas estão assustadas esta manhã e a comunidade judaica está muito medo”, ressaltou.

Importação do conflito

A mídia francesa aponta que a proibição das manifestações resultou na importação do conflito israelo-palestino para o solo francês. A idéia é rebatida pelo especialista em confrontos no Oriente Médio da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França (EHESS), Michel Wieviorka.

“O que acontece na Faixa de Gaza tem implicações na França porque há pessoas que são sensibilizadas em razão de diferentes tipos de identificações que estão em jogo: seja dos judeus, que defendem Israel; seja do outro lado, formado ou por cidadãos que se identificam com a causa palestina, ou pelos que se sensibilizam mais devido às suas origens palestinas, ou que seguem a religião muçulmana. Mas dentro deste último grupo, há também islamistas radicais”, explica o sociólogo.

Para Wieviorka, os atos antissemitas cometidos em Paris e em Sarcelles não têm relação com a proibição destas manifestações, mas com a tensão já existente entre as comunidades judaica e muçulmana. "Na França, há muito tempo, vemos um aumento do antissemitismo dentro da comunidade de origem árabe e muçulmana. Além disso, em alguns bairros e cidades, árabes ou muçulmanos e judeus cohabitam - criando tensões que aumentaram devido ao contexto atual", explica.

Diante da revolta da opinião pública com a proibição das manifestações – um ato inédito em toda a Europa – o governo francês resolveu voltar atrás e autorizou um ato organizado pelo Coletivo Nacional pela Paz Justa e Durável entre Israelenses e Palestinos, nesta quarta-feira em Paris.

Reparar os erros

Segundo Taoufiq Tahani, presidente da Associação França Palestina Solidariedade, uma das organizações que realizam hoje a manifestação, a decisão do governo é uma forma de tentar reparar seus erros. "Até o momento, organizamos cerca de 250 manifestações em apoio aos palestinos em toda a França. Todas elas aconteceram na calma absoluta, com exceção de uma em Paris, no dia 13 de julho, devido à tentativa da Liga da Defesa Judaica de se integrar à manifestação no final”, diz.

Tahani lembra que as duas manifestações nas quais houve confusão - no norte de Paris, e a de Sarcelles - , são as que foram proibidas. “Quando as pessoas são privadas de seu direito, há desordem, há violência. Eu espero que o governo tenha feito a relação entre as duas situações", completa.

O militante a comunidade palestina na França espera que o governo francês exija de Israel não somente o fim dos bombardeios e das agressões contra a população da Faixa de Gaza, mas também a retirada do bloqueio que asfixia a frágil economia da região Gaza.

Nesta extensão de 40 quilômetros entre o Mar Mediterrâneo e Israel, os 1,8 milhão de palestinos da Faixa de Gaza dependem da importação de bens e produtos para sobreviver. As mercadorias chegam ou através da ínfima fronteira com o Egito ou através dos túneis construídos pelo movimento Hamas, que Israel alega ser ilegal porque diz que é utilizado pelo grupo para receber armamento. “Se isso não for resolvido, a situação vai continuar se repetindo, como em 2009, 2012 e agora em 2014", prevê.

Longe de um desfecho

O professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ, Márcio Scalércio, defende que o conflito está longe de um desfecho. Para ele, existe uma deliberada falta de interesse das autoridades israelenses e palestinas pela paz na região. “De um lado, há grupos radicais como o Hamas, cuja manutenção do conflito é importante para que eles continuem existindo como atores políticos. Por outro lado, os governos israelenses desobedecem há décadas as resoluções das Nações Unidas, invadindo territórios que pertencem aos palestinos, e violando os direitos humanos”, analisa.

Para Scalércio, os mediadores habituais perderam sua credibilidade para tentar encontrar uma saída para o conflito. “As inclinações dos Estados Unidos e da União Europeia são sempre mais favoráveis aos interesses israelenses”, argumenta.

O professor defende uma ampliação da mediação internacional que hoje considera ineficaz e oportunista. “Talvez seja necessário convocar atores menos viciados no processo e que possam ter de mais isenção nas negociações. Mas isso está distante de acontecer’, ressalta.

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