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Países desenvolvidos tiveram governos fortes depois de eleições apertadas

Por Gabriel Rocha Gaspar

Tão logo se consolidaram os resultados da eleição presidencial no Brasil, no último domingo, os sites dos principais jornais do país começaram a destacar em suas manchetes o fato de que Dilma Rousseff havia sido reeleita com uma margem muito estreita de votos. O tom geral da cobertura dava a entender que o país estava dividido e que isso seria fruto de um enorme descontentamento da população com a política petista. Era como se a vitória, por não ser uma lavada, não chancelasse a candidata vencedora.

Além desta vitória ser "menos legítima" do que as últimas conquistas do PT, a ausência de uma votação acachapante encurtaria radicalmente a margem de manobra do próximo governo. Em outras democracias, como os Estados Unidos ou a França, disputas polarizadas são regra e não exceção. Barack Obama, por exemplo, bateu Mitt Romney em 2012 por uma diferença de menos de três pontos percentuais. Naquele mesmo ano, François Hollande abriu pouco mais de 2 pontos sobre Nicolas Sarkozy.

Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute, no King's College de Londres, não acredita que eleições apertadas sejam necessariamente um empecilho à governabilidade. Ele lembra, por exemplo, que Margaret Thatcher foi eleita por apenas dois milhões de votos em 1979, para o mandato em que iniciou uma série de reformas estruturais de cunho liberal. "George W. Bush, em 2000, perdeu" no número de votos absolutos. Foi naquela gestão à frente da Casa Branca, que ele mudou o curso da história ao convencer metade do planeta a caçar armas de destruição em massa onde não havia.

Para o professor americano James Green, diretor da Brazil Initiative, na Brown University de Rhode Island (EUA), foi a incompetência da oposição em apresentar candidaturas fortes nas últimas eleições que fez com que os brasileiros se acostumassem às vitórias avassaladoras do PT. "O fato de o PSDB ter lançado no passado candidatos que foram muito fracos (Geraldo Alckmin e José Serra) deixaram as pessoas imaginarem que o PT ou qualquer outro partido teriam que vencer com margens de 10% a 20%".

Unidos no discurso, divididos na prática

No discurso que fez logo após a vitória, Dilma tentou apaziguar as diferenças que, evidentemente, foram catalizadas por uma campanha de rara agressividade. "Minhas primeiras palavras são, portanto, de chamamento e união. Democracia madura e união não significam necessariamente unidade de ideias nem ação monolítica conjunta, mas, em primeiro lugar, disposição para o diálogo. Esta presidente aqui está disposta ao diálogo", disse ela.

Nenhum dos dois especialistas acredita piamente nisso. Para Green, há uma polarização política e outra regional, que não serão eliminadas facilmente. Principalmente por conta do rastro de rancor deixado pelo discurso xenófobo contra os nordestinos. O preconceito divide-se entre o deliberado ("O Brasil tinha que se separar" ou "O sul e o sudeste carregam o nordeste nas costas", para ficar nos mais leves) e aquele "embutido no discurso contra o Bolsa Família. Eu fiquei muito triste com essa maneira de atacar o governo, alegando que pessoas que recebem o Bolsa Famíllia não têm capacidade de pensar seu voto porque estão recebendo ajuda do governo".

Para ele, essa polarização deve continuar e por isso o discurso da presidente não deve ser lido de maneira muito literal. "Essa coisa de insistir sobre reivindicações que a presidente 'tem que' imediatamente implementar, isso não existe em outros países. Quem ganha, ganha. Ganhou, venceu e vai implementar seu programa", afirma o professor da Brown University.

"Parece que ela está sentindo a necessidade de unir o eleitorado, falar sobre a reforma política, fazer alianças", observa Anthony Pereira. "Em termos de argumento normativo - 'ela tem que fazer isso' -, eu não concordo necessariamente. Acho que, em qualquer democracia, você tem a eleição e o vencedor tem todo o direito de governar como ele quiser". Ele pondera, no entanto, que no contexto brasileiro, ela sente que é necessário "não somente restaurar as relações com a oposição, mas internamente".

Pereira se refere ao PMDB, que impõe empecilhos ao ponto chave das promessas de Dilma para o novo mandato: a reforma política. Ela pede plebiscito, mas querem referendo os caciques da base - que são o que são porque têm a fórmula e a estrutura política para se manter no poder desde a ditadura. O referendo implica que o texto passe pelo Congresso e que sobre para a população um simples "sim" ou "não" sobre o que eles decidirem.

Democratização da mídia

Uma reforma incomoda muita gente. Duas reformas incomodam muito mais. E a segunda delas, a democratização da mídia, foi natimorta no passado, quando Lula aventou a possibilidade de um conselho social da mídia e terminou censurado por uma enxurrada de acusações de querer "censurar". Dilma prometeu naquele mesmo discurso que não será radical neste sentido, mas quer regulações econômicas e do direito de resposta.

Para os especialistas, impressionados com o deserto de regulação em que trabalham os grandes veículos brasileiros, ela deveria ir além disso: "Eu acho uma pena que ela não tenha liderado uma tentativa mais séria de propor algum tipo de regulação porque há mito que um governo propondo alguma regulação sobre como a mídia pode agir, isso implica necessariamente no fim da liberdade de imprensa", diz Anthony Pereira.

França e Grã-Bretanha têm regulação estrita

Mas, para ele, "isso não é verdade. Se você olha, por exemplo, a França ou a Grã-Bretanha, há regras importantes sobre o comportamento da mídia. Mas acho que Dilma, por causa desta postura da maioria dos atores da mídia contra o governo dela, parece que ela tem hesitação em enfrentar essa questão", observa o professor.

Green vai na mesma linha: "Eu não conheço nenhum outro país democrático em que a grande imprensa apóia um só partido político e é totalmente contra um governo. Não existe isso. Nos Estados Unidos, tem jornais liberais, jornais conservadores, a linha editorial é uma coisa, as reportagens são outra coisa. No Brasil, não é nada disso. As reportagens, as manchetes, são totalmente parciais e politizadas, explica que só existe uma versão sendo transmitidas para as classes médias que compram os jornais e para as classes populares, que assistem ao Jornal Nacional, da Rede Globo".

Curiosamente, os dois especialistas concordam em discordar da imprensa brasileira no que tange a análise dos resultados eleitorais e o prognóstico para os próximos anos de Dilma Rousseff à frente da presidência. Um deles vem da Inglaterra, que é a mãe biológica do neoliberalismo. O outro, dos Estados Unidos, pai de criação. E os dois acreditam que, enquanto a grande mídia for regulada exclusivamente pelo mercado, nossa democracia não será completa.

 

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