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Possível fim do acordo nuclear Brasil-Alemanha pode reforçar parceria francesa

Por Gabriel Brust

O parlamento alemão deve debater e votar nesta quinta-feira (6) o cancelamento do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, que está em vigor desde 1975. O Partido Verde alemão diz que não há mais sentido em dar continuidade à cooperação, já que o país decidiu banir a energia nuclear em 2011. Do lado brasileiro, especialistas também acham que o acordo não deixaria saudade. E os franceses estão vendo oportunidades.

O acordo foi assinado na década de 70 em um contexto de crise do petróleo. Os países se comprometeram a desenvolver um programa conjunto de construção de oito grandes reatores nucleares para a geração de eletricidade. Ao longo dos anos, apenas duas unidades foram construídas e, recentemente, a parceria se resumia a encontros para debates e cursos.

Para João Manoel Losada Moreira, especialista em Energia Nuclear da Universidade Federal do ABC, o programa se tornou irrelevante ao longo dos anos. “Quando ele foi feito, as expectativas sobre energia nuclear eram muito grandes. Mas isso acabou não ocorrendo. A importância do acordo ficou reduzida. O Brasil chegou a desenvolver tecnologia nuclear de forma mais independente e com mais sucesso. O possível fim do acordo não vai trazer consequências importantes”, afirma o professor.

Os deputados alemães que pedem o fim da cooperação, no entanto, também querem passar um recado ao Brasil. Eles dizem reprovar a política brasileira para o setor, que inclui o domínio do ciclo de combustão do urânio e a recusa em assinar um protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. “Esse protocolo foi feito por americanos e europeus para todos os países por causa do Irã. Mas o Brasil está numa situação diferente, é uma democracia aberta. Não faz nenhum sentido a comparação”, critica Losada Moreira.

Para Losada, a modernização do projeto nuclear brasileiro passa necessariamente pela reformulação da lei para permitir a exploração privada do setor. Embora o estado ainda seja o principal ator, ele hoje faz parcerias. “A crise hídrica mostra que há uma grande dificuldade em o Brasil continuar a geração de energia elétrica somente com hidrelétricas. O tempo das grandes hidrelétricas está chegando ao fim. Talvez tenhamos que partir para novas alternativas, e uma delas é a nuclear”.

Apesar de Fukushima, França defende modelo

Uma das mais recentes parcerias privadas se dá com a gigante francesa Areva, que assinou no ano passado um acordo para finalizar a usina de Angra 3, a um custo de € 1,25 bilhão. Bernard Bigot, que é o diretor-geral da poderosa Comissão de Energia Atômica francesa (CEA), acredita que, neste contexto, a França pode ocupar o espaço do vizinho europeu: “A Alemanha decidiu abandonar o nuclear e então não é mais um parceiro confiável para o Brasil. Em consequência, a relação entre a França e o Brasil pode substituir a que existia entre Brasil e Alemanha.”

Bigot, que é um dos porta-vozes da energia nuclear francesa, diz que Fukushima levou o mundo a aumentar ainda mais as medidas de segurança e que a política de seu país para o tema não deve mudar tão cedo: “No setor nuclear os compromissos são duráveis. A França fez essa escolha e todos os presidentes nos últimos 40 anos reafirmaram o interesse em ter uma tecnologia nuclear de longo prazo”.

Com a experiência de quem trabalha há 47 anos na linha de frente do Estado francês em relação à energia nuclear, Bigot diz que as causas do contraste entre a visão alemã e francesa sobre o tema são práticas, mas também culturais: “A França já demonstrou fazer uma energia nuclear de alta perfomance e segura. E, ao contrário da Alemanha, não podemos contar com o carvão. Então, a Alemanha decidiu, e eu respeito essa decisão, que depois do medo que o acidente de Fukushima causou em sua população, ela deveria se retirar da energia nuclear. A França não pode e não tem nenhuma razão para fazer isso. Ao contrário, tem boas razões para utilizar energia nuclear. São duas culturas diferentes e é preciso respeitá-las.”

Se depender da França, o Brasil tem um longo futuro dedicado à energia nuclear. “Não há solução única, é preciso compor com diferentes opções”, diz Bigot. “O Brasil tem uma irrigação abundante, mas a construção de barragens tem grande impacto. A energia nuclear é extremamente concentrada, não necessita de território grande”, defende.

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