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Posse de Evo Morales marca reaproximação com governo brasileiro

Por Taíssa Stivanin

O presidente reeleito boliviano Evo Morales toma posse nesta quinta-feira (22) pela terceira vez. Eleito com 61% dos votos em outubro de 2014, o chefe de Estado completará 14 anos no poder se cumprir seu mandato até o fim. A cerimônia começou nesta quarta-feira (21), com um ritual indígena em Tiwanaku, onde teve origem o império Inca.

O presidente boliviano receberá dois bastões durante as festividades, um dado por uma criança e outro por uma anciã – uma tradição que representa a passagem do poder na cultura andina. A presidente Dilma Rousseff confirmou sua presença, preferindo prestigiar Morales a participar do Fórum Econômico de Davos, que começou nesta quarta-feira (21) na Suíça. Esta será a primeira visita oficial de Dilma à Bolívia, acusada de manter uma relação “fria” com o chefe de Estado latino, um grande amigo de Lula. O Brasil ainda continua sem embaixador no país desde a saída do ex-chanceler Antonio Patriota.

“O Brasil está sem embaixador desde o incidente do senador exilado na embaixada que deixou o país clandestinamente. A ida da Dilma tem relação com as queixas do próprio Morales. Sendo que Lula, como diz o próprio presidente boliviano, era como um irmão, que visitou várias vezes o país. Também há a queixa de empresas brasileiras responsáveis pela construção de estradas, que tiveram contratos cancelados. Várias delas não participaram das últimas licitações e têm se queixado de problemas com o governo”, diz Luis Fernando Ayerbe, professor de Relações Internacionais da UNESP (Universidade Estadual Paulista).

O diretor para a América Latina João Augusto de Castro Neves, da think thank Eurasia Group, lembra que o problema entre o Brasil e a Bolívia começou com a nacionalização dos ativos da Petrobrás, em 2006, e desde então um ceticismo reina entre os dois governos.

“A Petrobrás era responsável por 10% a 15% do PIB boliviano. O dinheiro da construção do gasoduto entre o Brasil e a Bolívia e a compra do gás pelo Brasil também tornaram o país muito dependente do governo brasileiro”, explica. De acordo com ele, os escandâlos envolvendo a empresa brasileira de petróleo e a desaceleração da economia brasileira vão dificultar os investimentos da empresa em solo boliviano. “Por mais que possa haver uma aproximação diplomática com a ida da presidente à posse de Morales, não vejo recursos do governo brasileiro à disposição, nessa altura, serem injetados na Bolívia.”

Queda do preço do petróleo é desafio para Morales

O presidente boliviano inicia seu terceiro mandato em uma posição um pouco menos confortável em relação ao ano passado: a projeção da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe), mostra que o PIB boliviano, que deveria crescer mais de 5%, não deverá passar de 4,5%, mesmo que esse índice seja invejável em comparação ao de seus vizinhos latinos. O motivo é a queda do preço do petróleo, que influencia as exportações de gás, uma das principais fontes de riqueza bolivianas. “O que se configura agora é um alerta, e o próprio presidente Morales já disse isso. Um alerta no sentido de verificar se o acúmulo de reservas em dólares vai compensar eventuais quedas na arredacação de divisas com base nas exportações de gás. O desafio é manter as políticas distributivas e a queda renda per capita nesse contexto”, explica Ayerbe.

Para Castro Neves, apesar desse problema, a condução da economia boliviana leva a crer que o país poderá enfrentar a queda do preço do bruto sem grandes sobressaltos. “O próprio FMI reconhece que a Bolívia tem defesas para tempos menos favoráveis na economia global. Mas não podemos nos esquecer da perspectiva de investimentos a longo prazo. A Bolívia necessitará de novas reservas de gás, mas precisa de recursos e investidores para descobrir essas novas reservas e gerar divisas, o que pode ser problemático a longo prazo, já que com o preço do petróleo em queda, as grandes empresas repensam seus investimentos e cortes”, acrescenta.

País possui de grandes reservas de lítio

A Bolívia também é dotada de reservas minerais estratégicas, como o lítio, matéria-prima essencial na fabricação de baterias para celulares, por exemplo. A extração de minerais continuará sendo uma prioridade, mas um dos desafios do país, agora, será obter investimentos para fabricar produtos de valor agregado, deixando assim de ser um mero fornecedor de matéria-prima.

“Neste terceiro mandato, haverá uma aceleração de políticas desenvolvimentistas e extrativistas, que constituem uma grande parte do programa anunciado pelo governo de Morales durante a campanha eleitoral. A Bolívia tem grandes reservas de lítio, mas também grandes reservas minerais de gás. Os próximos cinco anos ainda deverão ser marcados pelo desenvolvimento infraestrutural e o apoio à agricultura”, diz Laurent Lacroix, pesquisador do Instituto de Altos Estudos da América Latina.

Nas redes sociais, internautas criticam “presidentes eternos”

Muitos internautas brasileiros publicaram mensagens nas redes sociais comparando Morales ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Para eles, as mudanças constitucionais que permitiram a reeleição sucessiva desses líderes criaram regimes “ditatoriais com ares democráticos.” Um ponto de vista que incomoda o pesquisador francês.

“Os termos são fortes. Quando falamos de ditadura e pensamos na história da democracia, isso traz à memória um período negro, e dificilmente representa a realidade do continente de hoje. Há um debate que deve ser orientado, talvez, na maneira de fazer política, e de processos de decisão. Não podemos negar que haja um autoritarismo do governo boliviano e venezuelano, mas esses presidentes foram eleitos em um contexto relativamente democrático. Não houve muitos contratempos nesse processo eleitoral. Então dificilmente podemos contestar a legitimidade desse governo, o que não nos impede de termos uma visão crítica sobre a maneira que eles tomam certas decisões.”
 

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