rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Fato em Foco
rss itunes

França é condenada por não proibir a palmada e o tapa no rosto em crianças

Por Daniella Franco

O Conselho Europeu dos Direitos Humanos condenou a França nesta quarta-feira (4) por não ter nenhuma legislação precisa contra as punições corporais ditas "educativas" em crianças. A palmada ou a famosa "gifle", como é chamado na França o tapa no rosto, ainda são métodos considerados normais em muitas famílias.

A denúncia não vai resultar em nenhuma sanção ou punição contra a França, mas a decisão é importante em um país onde o tapa no rosto ainda é visto como um direito dos pais sobre os filhos, muitas vezes tratado como uma questão "cultural" da sociedade francesa. A expectativa é que o país atualize a sua legislação, sob o risco de ser condenada na Corte Europeia do Direitos Humanos (CEDH).

A principal organização de defesa dos direitos das crianças na França, a Fundação pela Infância faz, desde 2011, uma intensa campanha contra a violência infantil e batalha pela criação de uma lei que proteja os menores das punições corporais. A ong produz vídeos chocantes que mostram o efeito que violências domésticas como o tapa no rosto ou a palmada podem causar nas crianças.

O coordenador da campanha, Gilles Lazimi, critica a falta de legislação para proteção dos menores na França: "Eu tenho a sensação de que falamos frequentemente dos direitos dos pais e não falamos suficientemente dos direitos das crianças. Os franceses dizem que não é papel do Estado dizer o que podemos fazer com nossos filhos. Mas é sim, especialmente quando não se trata apenas da educação, mas de violências".

Maioria dos franceses apoia "a gifle"

O assunto causa polêmica e divide opiniões. Pesquisas recentes mostram que uma grande maioria dos franceses já recebeu um tapa no rosto ou uma palmada dos pais. Cerca de 80%, inclusive, é contra a proibição deste tipo de violência.

A enfermeira brasileira Danielli Laforgue mora há três anos na França e é mãe de três crianças. Ela discorda da alegação de que o tapa no rosto seja uma atitude cultural no país. "Os franceses não vêem o tapa no rosto como uma agressão, mas eu não entendo como isso pode ser educativo. Não é uma palmada que vai mostrar à criança que ela está errada", diz.

Já a professora brasileira Tatiana Bichara Leal Parsi, que mora há cinco anos na França e tem uma filha de um ano, não acha que uma palmada possa ser vista como uma violência. "Eu apanhei quando era criança e não fiquei traumatizada. Ao contrário, tenho um amor imenso por meus pais. Não sou a favor da agressão, mas um tapinha no bumbum pode ser corretivo e não vai causar nenhum mal", explica.

Tapa ou palmada não educam

Mas, a professora Lidia Weber, do Departamento de Psicologia e Educação da Universidade Federal do Paraná, alerta que qualquer violência física é prejudicial para os pequenos. "Uma palmadinha é diferente de uma surra? Os estudos mostram que não. Afinal, a natureza desta violência é a mesma : uma ação que é utilizada para causar dor no outro para que ele obedeça", alega, lembrando que o tapa não funciona a longo prazo e não serve para modificar o comportamento de uma criança.

A psicóloga infantil Daniella Freixo de Faria explica que a palmada ou o tapa não proporcionam nenhum tipo de aprendizado ao menor. "A agressão não vai esclarecer para a criança porque ela não deve fazer um escândalo em um supermercado para ganhar um doce. Quando essa criança voltar a passar pelo mesmo tipo de situação, ela vai ter o mesmo tipo de comportamento", alerta.

Para Dra. Daniella é preciso levar em consideração que a educação e os comportamentos das crianças evoluíram. "Os pequenos hoje têm voz, espaço, opinião e atualmente são vistos como seres que têm algo a nos ensinar também. Essas crianças não podem ser vistas como antigamente e serem punidas como nós, adultos, éramos, há anos", argumenta.

Consequências das pequenas violências

Dr. Lidia ressalta que inúmeros estudos mostram que qualquer tipo de violência pode trazer resultados negativos para a criança. "Não quer dizer que se alguém der um tapa no filho, ele vai se transformar em um criminoso. Mas a punição física, dependendo de fatores como a estrutura da família, a frequência e a intensidade da agressão, o momento em que ela aconteceu, podem trazer consequências sérias, como uma baixa auto-estima na criança, maior probabilidade de depressão, e a possibilidade que este comportamento violento seja repetido pelo menor", enumera.

"Eu já ouvi de uma criança de 4 anos, por exemplo, que ela estava treinando, para que um dia, quando ela crescesse, pudesse bater no pai para revidar as agressões sofria", relata Dr. Daniella. A psicóloga sublinha que outro dano que a violência física pode causar é a "perda de foco" por parte do agredido, sem que a vítima tenha a noção de que foi punida por uma má escolha. "E o foco de toda ação dela passa a ser o adulto que a colocou no desconforto", finaliza.

Para brasileiros em Paris, violência urbana no Brasil ainda é pior que terrorismo

Pesquisa aponta que franceses aceitariam menos liberdade em troca de segurança

Nova regra francesa de doação de sangue impõe abstinência sexual para doadores gays

Campanha contra bullying prejudica imagem do professor, dizem sindicatos da França

Presença do Irã em negociações sobre a Síria é essencial para a paz

Motivo de polêmica no Enem, Simone de Beauvoir foi fundamental para o feminismo

Analista em Berlim diz que só "base recosturada" pode afastar impeachment de Dilma