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Brasil poderia se inspirar na Califórnia para combater a seca

Pela primeira vez em sua história, o estado da Califórnia instituiu, na semana passada, o racionamento de 25% no uso da água distribuída pelas agências responsáveis pelo suprimento de 90% das residências, fazendas e do comércio do estado mais rico dos Estados Unidos. Adotada na quarta-feira, a medida inclui a redução drástica da manutenção de jardins públicos e um trabalho de conscientização da população, aconselhada a tomar banhos mais curtos e a lavar os carros com menor frequência.

Eduardo Graça, correspondente da RFI nos EUA

O governador da Califórnia, Jerry Brown, afirmou que os cidadãos precisam entender que “entramos em uma nova era”, em que o consumo de água precisará necessariamente ser tratado de forma mais responsável. Os problemas de abastecimento no estado vêm se desenhando nos últimos quatro anos, quando começou o pior ciclo de seca registrado na história do oeste americano. Os principais reservatórios estão com o nível de água pela metade e o governo federal está preocupado, especialmente pelo fato de o estado ser um dos celeiros da América do Norte. Para se ter uma ideia, a Califórnia responde por 90% da produção de tomate, 95% do brócolis e 99% das amêndoas dos Estados Unidos.

Alta nos preços dos alimentos

A expectativa é de que os preços de alimentos cultivados extensivamente na Califórnia, como o abacate, por exemplo, aumentem de forma significativa. O governo estadual pondera, no entanto, que o racionamento não afetará imediatamente o agronegócio, que não depende da água distribuída pelo governo. As principais plantações e vinícolas do estado contam com sistema próprio de irrigação, sem depender da distribuição pública de água.

A nova iniciativa do governo estadual exige que as fazendas passem a mandar relatórios detalhados, a partir desta semana, com o objetivo de se detectar eventuais vazamentos. Os mais afetados, em um primeiro momento, deverão ser os pequenos agricultores. Eles são os principais fornecedores de produtos orgânicos para as feiras e supermercados especializados em grandes cidades. Neste caso, os consumidores deverão sentir o efeito da seca, no bolso, já nos próximos dias.

Fiscalização

Caberá às 400 distribuidoras locais racionar o envio de água. A punição, ainda a ser definida, irá para as distribuidoras, e não para os cidadãos. Como elas não querem arcar com multas e o risco de terem suas atividades suspensas, os moradores serão comunicados nos próximos dias sobre o volume de redução do fornecimento de água em suas cidades.

Em Palm Springs, por exemplo, endereço de mansões e grandes propriedades, um oásis no meio do deserto, a redução será maior, com a distribuição de água caindo pela metade. Já foram anunciados incentivos fiscais para os moradores trocarem os gramados por pedras na frente de suas casas. Em São Francisco, os restaurantes saíram na frente e já não oferecem mais água automaticamente nas mesas dos clientes.

Brasil pode aprender com experiência da Califórnia

Cientistas afirmam que as causas da seca na Califórnia estão ligadas aos efeitos do aquecimento global. Além do aumento da população e do número de carros nos últimos trinta anos, um dos principais reservatórios naturais de água do estado, a neve das montanhas do norte, diminuiu de forma definitiva, acreditam os especialistas.

Em novembro, os eleitores da Califórnia aprovaram em referendo a emissão de títulos públicos no valor de US$ 7,5 bilhões a serem revertidos para obras de reciclagem de água e, principalmente, para incrementar o sistema de coleta da água pluvial. O estado já economizou 10% do consumo urbano de água no ano passado, após o anúncio do primeiro pacote de medidas duras do governo para reduzir o desperdício.

O Brasil, e especialmente São Paulo, têm sofrido recentemente com a diminuição das chuvas e com a falta de planejamento a longo prazo para os efeitos das mudanças climáticas. As medidas adotadas na Cailfórnia são exemplos que podem ser adaptados para a realidade brasileira. Afinal, os cientistas garantem que as secas, seja na Califórnia ou em São Paulo, infelizmente, vieram para ficar.

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