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Fuga de clandestinos abre olhos da Europa sobre caos na Líbia

Por Lúcia Müzell

A crise gerada pela sucessão de naufrágios nos últimos dias levou a Europa a se confrontar com uma questão que Bruxelas procurava empurrar para baixo do tapete: o caos político na Líbia. A maioria dos milhares de migrantes que tentam atravessar o Mar Mediterrâneo deixa a África pela costa líbia, em viagens organizadas por redes perigosas de atravessadores.

Os criminosos se aproveitam de um contexto de completa instabilidade no país para gerenciar o lucrativo comércio de sonhos de uma vida melhor na Europa. Desde a queda do ditador Muammar Kadafi, em 2011, a Líbia está mergulhada em diferentes disputas de milícias e grupos de poder, concentrados em dois focos principais: os islamitas do oeste, na capital Trípoli, e os laicos do leste, concentrados em Bengazi.

Um representante da ONU foi enviado ao país para tentar costurar um entendimento. Mas Moncef Djaziri, autor de “Estado e Sociedade na Líbia” e professor honorário da Universidade de Lausanne, na Suíça, está pessimista sobre o sucesso das negociações. “Infelizmente, há muito pouca esperança de melhorias na situação política na Líbia. A missão do representante da ONU está fadada ao fracasso”, lamenta.

Em meio ao impasse, os extremistas do grupo Estado Islâmico avançam pelo oeste do país, com pouca ou nenhuma resistência dos islamitas que controlam Trípoli e outras regiões. O especialista não tem meias palavras: para Djaziri, a ocupação pelos terroristas é uma consequência da intervenção militar internacional que derrubou Kadafi.

“A intervenção de 2011 contribuiu para desestabilizar a Líbia, acentuou a destruição do Estado e foi um mau sinal enviado às populações africanas. Ela criou um vazio no poder e, por consequência, abriu as condições objetivas para o nascimento do Estado Islâmico neste país, que gera graves problemas para a paz e a segurança, inclusive na Europa”, observa.

Nova intervenção

Mesmo sem reconhecer oficialmente a responsabilidade na situação atual, o governo dos Estados Unidos já trabalha para tentar corrigir o “abandono” da Líbia pós-Kadafi. Os americanos avaliam maneiras de expandir os ataques feitos ao grupo Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Na Líbia, a ameaça do terrorismo também se une ao problema do tráfico de pessoas. Desde fevereiro, os jihadistas ameaçam se infiltrar nos grupos de imigrantes para chegar na Europa através da Itália. Em um vídeo de propaganda, eles prometerem colocar a bandeira da organizaçao em pleno Coliseu.

O professor Djaziri defende a realização de uma conferência internacional para debater a situação no país e avalia que será necessária uma nova operação militar para afastar os terroristas do território líbio.

“As autoridades líbias não têm condições de resolver esse problema, por isso será necessária uma intervenção militar internacional em um momento ou em outro”, afirma. “Infelizmente, isso será inevitável, e é uma consequência da intervenção de 2011, que deveria ter sido acompanhada de um plano mais vasto de apoio à situação líbia.”

Questão migratória

Quanto às dezenas de milhares de africanos e árabes que deixam tudo para trás para tentar uma vida nova na Europa, a solução passaria por um engajamento mais profundo dos países ocidentais em promover o desenvolvimento do continente africano. Uma espécie de “plano Marshall africano” poderia estancar, a longo prazo, o fluxo migratório que tanto incomoda a Europa.

“É preciso tratar da origem dos problemas migratórios: proteger as populações em zonas de violência, exigir que os governos africanos façam mais neste sentido e controlem melhor as suas fronteiras”, destaca. “É necessário mostrar para os que querem imigrar que a vida não é fácil na Europa e que existem soluções para essas pessas mais perto.”

 

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