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Cartunista Luz explica por que vai deixar Charlie Hebdo

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O cartunista Luz, nome artístico de Rénald Luzier, apresenta a capa da primeira edição que desenhou depois dos atentados de janeiro. AFP PHOTO / MARTIN BUREAU

Em entrevista ao Libération nesta terça-feira (19), o cartunista Luz, um dos desenhistas mais famosos do jornal satírico Charlie Hebdo, conta por que razões decidiu deixar a publicação a partir de setembro. Luz afirma precisar de tempo e de sossego para se reconstruir depois do atentado que deixou 12 mortos na redação do Charlie Hebdo em janeiro.


Luz conta ao Libération que tem vivido num ambiente de luto, dor e revolta que sugam toda a sua energia. O cartunista se diz incomodado com o assédio da mídia e com o fato de ter se tornado um assunto diário nos jornais e nas redes sociais. Ele tem a impressão de ter perdido o controle sobre a própria identidade. "Quando você tenta se reconstruir, voltar às suas raízes e ao que sempre foi, é super complicado ter a impressão de que você tem um clone sobre o qual não possui nenhum controle", explica.

Luz assinou a primeira capa do jornal depois dos atentados. Ele desenhou uma nova caricatura de Maomé e disse que tudo estava perdoado. Diante da carga emocional e do apoio mundial que a publicação recebeu, para continuar existindo apesar da morte de seus principais desenhistas, o cartunista perdeu a inspiração. Luz afirma estar esgotado pelos dias intensos de trabalho. "Faço três capas por mês e não estou conseguindo lidar com a atualidade. Cada fechamento virou uma sessão de tortura porque os outros não estão mais aqui. Passar noites de insônia pensando nos que morreram, a se questionar o que Charb, Cabu, Honoré ou Tignous fariam é muito cansativo."

"Serei Charlie para sempre"

O desenhista afirma na entrevista ao Libération que sua saída não tem relação com a tensão interna provocada pelo destino das receitas arrecadadas por Charlie Hebdo após os ataques. Ontem, a direção do jornal satírico anunciou que vai repassar integralmente € 4,3 milhões (R$ 14,7 milhões) recebidos em doações e vendas desde os atentados de janeiro para as vítimas dos ataques.

"Não tivemos tempo de descansar, de pensar individualmente e coletivamente no que somos hoje. Chega uma hora que você explode", insiste o cartunista. Luz afirma que conseguiu sobreviver graças ao apoio "da mulher da minha vida". "Mas, no sentido coletivo, Charlie atravessa um estado de estresse pós-traumático e essa realidade não deve ser ignorada", argumenta.

"Não vou mais pertencer ao Charlie Hebdo, mas serei Charlie para sempre", declara o cartunista, enfatizando que defenderá, onde estiver, a liberdade de expressão.