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Congresso em Paris discute atualidade e futuro econômico, social e político de Cuba

Por Vanessa Oliveira

Nesta semana, um congresso de Ciências Sociais reuniu, em Paris, "cubanistas" do mundo inteiro para tentar projetar o que acontecerá com Cuba, social, política e economicamente, com a normalização das relações diplomáticas entre a ilha e os Estados Unidos. Como a mudança no panorama geopolítico impacta também a atividade dos pesquisadores, entrou na pauta qual será o papel deles nesse novo cenário.

“A normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos marca o fim de um conflito que trouxe ao povo cubano muito sofrimento”, comemora o professor Pablo Rodriguez, do Instituto Cubano de Antropologia. “Nós dividimos com os Estados Unidos um mesmo espaço geográfico. Ou seja, compartilhamos grandes problemas também: o tráfico humano, de drogas, o crime organizado e eu acho que isso cria pontos para um diálogo, para compreensão”. A questão é: o que vai sair desse diálogo?

Interesse renovado

Há mais dúvidas do que respostas. Mas é a dúvida que atiça a curiosidade. Desde os discursos simultâneos de Barack Obama e Raúl Castro, em 17 de dezembro do ano passado, o interesse sobre Cuba se multiplicou, como comenta Blandine Destremau, pesquisadora e uma das organizadoras do evento. “A gente já imaginava que a conferência seria bastante atual, porque no início esperávamos fazer um encontro de pesquisadores com a temática da mudança. E a gente viu [a decisão de Raúl e Obama] como uma confirmação da pertinência da conferência. O que aconteceu em seguida não foi fácil de saber exatamente, mas creio que multiplicou o interesse, criou talvez uma certa efervescência em Cuba, que podemos verificar na quantidade de participantes cubanos presentes”.

Destremau observa que muitos pensam que a ilha descambará para um liberalismo "mais ou menos democrático". Mas o ambiente acadêmico, que prioriza a complexidade e a nuance sobre o senso comum, permite "respeitar também o discurso - que, em Cuba, provém não apenas dos políticos, mas também dos pesquisadores engajados -, de que a mudança será mais controlada e talvez não tenha inexoravelmente o fim que as pessoas imaginam”.

Estão sobre a mesa algumas questões determinantes para o futuro do país, como a necessidade de um novo sistema político e a reorganização da economia. É o que conta Janette Habel, principal pesquisadora do tema na França: “Existem comissões parlamentares que trabalham em uma reforma do sistema eleitoral e também em uma eventual reforma da Constituição. Mas esses trabalhos ainda não vieram a público. O sistema eleitoral poderá ser parcialmente modificado, mas não no sentido de um pluripartidarismo. Por enquanto, o partido único continuará. Mas é possível que haja uma flexibilização.”

Eleições nos EUA

Essas mudanças macro-estruturais devem acontecer num futuro muito próximo, impulsionadas, sobretudo, pela proximidade do fim do mandato de Raúl Castro e pelas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos. “Se Hillary Clinton chegar à presidência, acredito que sua política será uma continuação do que tem feito Obama", especula o economista cubano Omar Everleny. "Ela inclusive escreveu na sua autobiografia que é contra o embargo. Com os republicanos e mais complexo. Eles estão divididos. Ainda que Marco Rubio já tenha dito várias coisas. São 16 candidatos e nenhum se destaca mais do que outro”.

Independentemente de os norte-americanos elegerem um republicano ou um democrata, Omar acredita que boa parte da política dos EUA para Cuba passará pelas vontades do empresariado - que tem um olhar bastante diferente daquele da tradicional dissidência cubana de Miami, historicamente a favor de sanções cada vez mais duras.

“Caso se consolidem todos os aspectos do ponto de vista comercial e econômico entre Cuba e Estados Unidos, nenhum presidente que vier deve voltar atrás", acredita Everleny. "Isso porque existe agora um grande lobby empresarial que está pressionando para que essas relações aconteçam. Não acredito que cheguem a cometer um erro como este. Ainda que o partido republicano seja mais adverso que o partido democrata”.

Embargo econômico

Agora, talvez nem o mercado seja capaz de acabar com o embargo financeiro e econômico imposto à ilha há mais de 50 anos. Já na primeira sessão do Congresso, os estudiosos reunidos em Paris fizeram questão de deixar claro que a normalização das relações diplomáticas não implica no fim do bloqueio.

“O presidente dos Estados Unidos pode facilitar as viagens e o envio de dinheiro. Foi o que ele fez”, observa Janette Habel. "Ele tem a possibilidade de tomar uma série de decisões capazes de aliviar o embargo, mas ele não tem o poder de acabar ou de abolir a lei que impõe o embargo. Só o Congresso poderia fazer isso. Mas, ter maioria no congresso neste período e neste contexto é extremamente difícil”, explica.

Muito do que definirá os novos caminhos da ilha internamente deve ser discutido no próximo Congressso do Partido Comunista Cubano, previsto para abril do ano que vem. O último congresso aconteceu no mesmo mês de 2011, quando se decidiu, entre outras coisas, pela abertura às atividades autônomas privadas no país - um dos mais importantes passos do que se convencionou chamar de atualização do sistema socialista. De qualquer forma, o governo cubano tenta acelerar suas decisões antes de 2018, quando termina o mandato de Raúl Castro. Ele próprio proibiu as reeleições indeterminadas - ou seja, nos próximos três anos, fecha-se um ciclo da história cubana.
 

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