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Revoltas de 2005 na França politizaram as periferias do país

Por Vanessa Oliveira

Nesta semana, a França relembra as revoltas na periferia de Paris e de outras cidades do país que marcaram o outono de 2005. Imagens de jovens com coquetéis molotov nas mãos, de milhares carros queimados e de confrontos entre jovens e policiais rodaram o mundo, revelando fantasmas que a França há muito guardava no armário. Dez anos depois, a sociedade ainda tenta entender o que foi exatamente aquele movimento, apesar dos vívidos frutos e feridas que ela deixou.

Tudo começou em 27 de outubro de 2005, quando a polícia foi acionada em Clichy-sous-bois, na periferia leste de Paris, para averiguar uma suspeita de roubo. Dez jovens que acabavam de sair de um jogo de futebol correram ao escutar a sirene. Três deles se esconderam em um transformador da EDF, a companhia francesa de energia, sem que a polícia avisasse aos meninos assustados dos riscos da área invadida. Muhittin Althun, de 17 anos, ficou gravemente ferido. Zyed Benna, também com 17 anos e Bouna Traoré, de 15 anos, morreram eletrocutados.

A tensão, que já era palpável em Clichy, aumentou pela presença maciça da polícia e pela falta de energia decorrente do acidente com os garotos. A violência urbana explodiu. Em seguida, como um rastilho de pólvora, periferias de todo o país, revoltadas com a própria invisibilidade, começaram a incendiar carros, destruir prédios e atacar qualquer representação do Estado. O caos social se arrastaria até 17 de novembro, deixando monotemática a cobertura da mídia. O que estaria acontecendo com aqueles bairros? E por quê?

Descaso e estigmatização

Essas perguntas seguem sem resposta, bem como as mortes dos dois adolescentes. Os policiais envolvidos, Sébastien Gaillemin e Stéphanie Klein, só foram julgados em 18 de maio de 2015 e, apesar de condenados pelo Tribunal Correcional de Rennes por "omissão de socorro a pessoa em risco", responderão em liberdade. O tribunal explicou essa decisão pela inexperiência dos réus, acatando o argumento da defesa de que, se os policiais tivessem "consciência do perigo grave e iminente ao qual estavam expostos os adolescentes", eles teriam "reagido".

Quase 20 dias depois do início da revolta, em seu primeiro discurso sobre o caso, o então presidente, Jacques Chirac (eleito pela antiga UMP; hoje, Partido Republicano, de direita), tentou apaziguar a situação dizendo que, independentemente das origens de cada um, "todos somos filhos da República". Ele minimizou o sentimento de invisibilidade dos revoltosos, afirmando que "nem todo mundo tem consciência de que esse respeito e essa igualdade de oportunidades são direitos já adquiridos", mas reafirmou seu compromisso com o "restabelecimento da ordem".

O discurso superficialmente apaziguador não foi adotado pelo seu ministro do Interior, Nicolas Sarkozy. Logo no início dos protestos, o futuro presidente lançou lenha na fogueira ao chamar os revoltosos de racailles. Racaille é uma expressão estigmatizante e preconceituosa para definir uma pessoa ou grupo que não se integram, que não se adaptam à sociedade, que são marginais. Sarkozy a utilizou durante uma visita a Clichy-Sous-Bois, em resposta a uma mulher que cobrava do ministro uma atitude.

Mais tarde, ele defendeu sua posição e endossou o discurso da eliminação de uma "minoria delinquente" que "envenena a vida das pessoas de bem". O discurso não encontrou apoio na periferia que, apesar de cansada da violência e da tensão diárias, tinha a opinião dividida em relação à ação dos jovens.

O que é violência?

Ao contrário de Sarkozy, o educador de rua e presidente da associação AC Le Feu, Mohammed Mechmache, vê essas pessoas como "marginalizadas" e não como "marginais" - o que faz uma diferença enorme: "Eu não acho que a violência que os jovens exprimiram seja mais violenta que a violência que essa população recebe da sociedade e das instituições", afirma, evocando a situação de abandono e preconceito às quais essa população é submetida no país.

Ele exemplifica: "Você tem crianças que são paradas pela polícia 10 vezes ao dia. Quando você vê como são tratadas algumas mães que, por usar um véu, não se encaixam na República francesa, isso é violento. Quando as pessoas vivem de forma insalubre, é violento. Quando você não tem acesso à cultura, é violento. Quando não há acesso à saúde, é violento".

O "Maio de 68" da periferia

Muitos artigos, documentários e reportagens compararam a ruptura criada pelas revoltas de 2005 ao célebre maio de 1968, em Paris. Como se, ali, de alguma maneira, a periferia tivesse reformulado seus próprios paradigmas. Mas, durante todo o outono de 2005, o movimento foi apolítico. Sem reivindicação precisa, sem porta-vozes, apenas confronto e a certeza de um inimigo: o status quo. Os conflitos se resolveram pouco a pouco, região por região. Clichy-sous-bois foi a primeira a ter a situação normalizada após uma reunião de representantes da comunidade com o ministério do Interior, em que um acordo foi firmado.

O que surgiu desses conflitos, porém, forçou a entrada da periferia na pauta: partidos, associações, reuniões de bairro, organização política. Estas talvez sejam as grandes conquistas depois de dois mortos, mais 10 mil carros queimados e milhões de euros em danos ao patrimônio. É no que acredita Mechmache: "O que mudou nesses últimos tempos, é que houve uma tomada de consciência. Os cidadãos se organizam agora", conta. " Foi possível criar coletivos com pesquisadores, acadêmicos, sociólogos, outros movimentos que hoje estão ligados às mesmas causas. Todos esses atores decidiram hoje criar vias de comunicação e dizer, juntos, que nós precisamos agir para não nos submetermos mais".

"Democracia em pane"

Nos cinco anos seguintes, Nicolas Sarkozy, impulsionado pela atuação repressiva como ministro, governou o país na mesma linha. Por isso, a eleição do socialista François Hollande foi um sopro de esperança para a militância do pós-2005. Uma esperança que durou pouco, segundo Mechmache: "Nossa democracia está em pane", diz. "Quando esses cidadãos percebem que, no fim das contas, as decisões são tomadas sem eles, as pessoas se questionam: já que eu não existo para os políticos, porque eu teria que me comprometer com eles?"

A estigmatização que fez as periferias explodirem em 2005 não dá sinais de retrocesso. Pelo contrário, ela se reforça pelos pequenos preconceitos do cotidiano, e principalmente, pela atuação violenta de uma minoria radical, como os autores do ataque contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em janeiro deste ano. "O morador desses bairros é muçulmano, se é muçulmano é terrorista e por aí vai... Falamos de liberdade, fraternidade e igualdade, falamos de republica, mas ao mesmo tempo não queremos reconhecer uma parte dessas crianças", lamenta Mechmache.

Ele também alerta para os perigos dessa falta de reconhecimento do Estado e para a consequente falta do sentimento de pertencimento, por parte desses jovens: "quando a gente ignora essas crianças, elas acabam se excluindo. E a exclusão gera isolamento, e o isolamento enfraquece essa juventude e pode seduzi-la para os mais variados tipos de radicalizações. Seja religiosa, seja política... e isso é extremamente preocupante". Atualmente, a França é o país de origem da maioria dos europeus que atuam em organizações jihadistas ultrarradicais, como o grupo Estado Islâmico.

"Parte da solução"

Ainda que o cenário sociopolítico continue desfavorável para a periferia, a organização política dos bairros aumentou o número de vozes dissonantes, que ecoam agora pelas ruas, universidades e até pela mídia francesa. "Eu acredito que nós estamos reinventando algo que não existe mais nessa 5ª República", diz Mechmache, referindo-se à participação das classes menos favorecidas em processos políticos. Orgulhoso da atuação desses grupos nas mais variadas esferas, ele defende que é hora de "fazer as coisas de maneira diferente" e lembra: "nós não somos o problema, mas uma parte da solução".

 

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