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Presença do Irã em negociações sobre a Síria é essencial para a paz

Por Lúcia Müzell

Pela primeira vez desde o início do conflito sírio, um importante ator regional, o Irã, vai participar das negociações internacionais que tentam encontrar uma solução para a guerra, que já dura mais de quatro anos. A mudança pode representar um passo significativo para a paz não apenas na Síria, como em outros países da região inflamados por confrontos étnicos e pelo terrorismo.

Os diálogos preliminares já começaram nesta quinta-feira, entre russos, americanos, turcos e sauditas. Os iranianos se juntam à mesa nesta sexta-feira, em mais um passo da reintegração de Teerã à diplomacia internacional, depois do acordo nuclear firmado em julho. Somente agora, os sauditas aceitaram a presença dos seus inimigos iranianos nas negociações.

As potências envolvidas no conflito sírio parecem ter percebido que não será possível se chegar a uma saída sem a participação de todos os líderes regionais.

“Pela primeira vez, o assunto é levado a sério. Não vamos mais nos contentar em dizer ‘Assad é malvado, Assad deve partir e os jihadistas são terríveis’. São discursos verdadeiros, mas não é com isso que chegaremos à paz”, avalia Bernard Hourcade, diretor emérito de pesquisas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas) e especialista na geopolítica iraniana. “Não dava para fazer nada sem a presença do Irã, que defende que não há uma solução militar, mas sim política e regional para o conflito.”

Saída de Assad: enfim perto de um consenso

A saída do cargo do presidente sírio, Bashar al-Assad, que por anos bloqueou as negociações, hoje é mais consensual. A questão agora é definir como e em que momento isso vai acontecer - e, principalmente, quem vai ocupar o poder em Damasco. Russos e iranianos já demonstraram que não são aliados de Assad em si, mas sim querem preservar os seus interesses no país.

O especialista francês explica que o cerne da questão é, na realidade, muito mais complexo. Duas grandes potências estão face a face no Oriente Médio: de um lado, as monarquias petrolíferas sunitas, lideradas pela Arábia Saudita, e do outro o Irã, xiita, aliada do regime sírio.

“O problema é resolver essa coexistência entre Irã e Arábia Saudita de uma maneira pacífica. Até hoje, o caminho foi pela violência, através da Síria, do Iraque, do Afeganistão, do Iêmen. Em cada um desses países, o Irã e a Arábia Saudita se enfrentam, apoiando grupos distintos”, explica Hourcade.

Confronto entre xiitas e sunitas

Para o pesquisador, uma grande guerra regional está em curso. “As discussões de Viena colocarão todos à mesa, pela primeira vez, na tentativa de se chegar a um entendimento entre iranianos e sauditas, talvez pela divisão das zonas de influência: o Irã sobre o Iraque e a Síria, e a Arábia Saudita sobre a península arábica”, analisa.

Ao decidir atacar os oposicionistas sírios, a Rússia deixa claro que o mais importante para Moscou é ampliar a sua influência na região, em um momento em que a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos fracassa em acabar com grupo Estado Islâmico.

“A Rússia está querendo aparecer nesse tabuleiro no Oriente Médio. Ela está se esforçando muito para contrariar os interesses do Ocidente e aparecer como uma alternativa para os governos do Oriente Médio”, diz o professor alemão Kai Michael Kenkel, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

Ao mesmo tempo, ao trazerem Irã para as negociações, os russos marcam pontos na eterna disputa com os americanos. “Historicamente, os americanos têm uma política de ver a região como um pacote. É uma visão fracassada da administração Bush, de exportar democracia através de um Iraque reconstruído”, observa. “O que é preocupante é a tendência crescente de ver o Iraque e a Síria como um pacote.”

União de desafetos contra o terrorismo

Enquanto isso, o terrorismo se espalha da região e atravessa as fronteiras, com o grupo Estado Islâmico. O diplomata Denis Bauchard, conselheiro sobre assuntos do Oriente Médio no IFRI (Instituto Francês de Relações Internacionais), destaca que essa ameaça comum levou as partes a se forçarem a encontrar um compromisso.

“Eu acho que os países, inclusive a Rússia, estão conscientes da incubadora de terrorismo que representa a Síria, um risco para a segurança deles próprios. Mas ainda há muitos pontos de desacordo, a começar pela definição de quem é terrorista, que não é a mesma para Bashar al-Assad, para os russos e para os ocidentais, incluindo a França”, afirma Bauchard.

 

 

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