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James Bond salva imagem geopolítica da Grã-Bretanha

Por Silvano Mendes

Em meio a uma atualidade internacional cheia de más notícias, entre a guerra na Síria, a crise migratória europeia e os conflitos no leste ucraniano, essa semana, como por encanto, todos as atenções se voltaram para as telonas. A estréia de 007 contra Spectre, o 24° episódio da saga de James Bond, invadiu a mídia e levou milhares de pessoas para as salas de cinema batendo recordes em vários países. Mas por trás do sucesso de bilheteria, o espião britânico esconde um verdadeiro garoto-propaganda do papel – idealizado – da Grã-Bretanha no cenário mundial.

Mesmo quem não é fã de cinema dificilmente conseguiu evitar o bombardeio midiático da estreia do filme dirigido por Sam Mendes. Seja nos painéis publicitários expostos nas ruas das grandes cidades, nos trailers divulgados na internet ou nas campanhas das marcas parceiras da produção, foi praticamente impossível não ver o rosto do ator Daniel Craig ou de suas “Bond Girls” da vez, a francesa Léa Seydoux e a italiana Monica Bellucci.

Aproveitando o barulho, o Instituto de Estudos de Relações Internacionais (Ileri) organizou recentemente em Paris uma conferência com um título provocador : "James Bond seria um herói geopolítico?" A instituição, conhecida por formar profissionais para a diplomacia e para trabalhar nos setores de segurança e defesa em organismos multilaterais, convidou especialistas que mostraram que o espião britânico não estaria tão longe das grandes preocupações internacionais.

Para o historiador e cientista político David Vauclair, que participou da conferência, James Bond pode ser considerado um personagem geopolítico. Principalmente pelo fato de combater em nome de um país, e não por razões pessoais, como acontece frequentemente com os demais heróis. Além disso, o especialista ressalta que o espião é um instrumento utilizado pela Grã-Bretanha, mesmo se ele representa uma visão idealizada do país da rainha Elizabeth. “James Bond é uma espécie de herói ou de mito que compensa a perda das colônias britânicas e, de maneira mais ampla, o fenômeno do fim da colonização dos anos 1950 e 1960. O autor Ian Fleming tentou responder ao que ele estimava ser o fim de um império britânico e do papel central da Grã-Bretanha no contexto mundial. O personagem do espião permite que o país continue a viver por meio de suas aventuras, mesmo se essa é uma Grã-Bretanha idealizada”, analisa o professor da Ileri e da universidade Paris Sud.

Recorde de público

A fórmula da saga parece ter funcionado mais uma vez. Além de arrecadar US$ 73 milhões em seu primeiro fim de semana nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá, 007 contra Spectre foi assistido por quase um milhão de pessoas em apenas dois dias na França, batendo todos os recordes já registrados.

Mas para David Vauclair, além do sucesso de bilheteria, o personagem de James Bond é um verdadeiro símbolo do chamado soft power, uma forma sutil de vender uma boa imagem de uma nação para o mundo. “Se pegamos o exemplo do Brasil, o carnaval, a música brasileira, o futebol e a capoeira vão dar uma imagem positiva e de sedução ao país, que vai além de suas fronteiras. James Bond faz a mesma coisa ao propor um modo de vida, uma maneira de se vestir, um humor e uma forma de eficiência e de sedução que são britânicos e ocidentais. E funciona, pois desde o início da saga, bilhões de pessoas foram seduzidas pelo herói de Fleming", comenta.

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