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Em frente ao Bataclan, um cenário de desolação e revolta

Por Daniella Franco

Diante do Bataclan, sala de shows do 11° distrito de Paris, palco do sangrento ataque na noite desta sexta-feira (13), o cenário é de desolação e revolta. A polícia cercou o local, mas os moradores do bairro se reúnem nos arredores em busca de respostas. Muitos prestam homenagens às vítimas e deixam flores e velas na rua do massacre. No chão do boulevard Voltaire, permanecem as marcas de um dos episódios mais trágicos que a capital francesa já viveu.

As ruas do 11° distrito de Paris estão vazias. Muitas lojas, bares e restaurantes estão fechados. Um cenário atípico para a tarde de um sábado, onde os parisienses lotam as ruas e praças, fazem compras, passeiam em família ou com amigos. O silêncio torna a rua Oberkampf, reduto boêmio dos jovens do bairro, praticamente irreconhecível. Os poucos moradores que circulam não se falam. Os olhares se cruzam em busca de apoio, de solidariedade, de respostas.

Na região do boulevard Voltaire, onde fica o Bataclan, o cenário é contrastante com o resto do bairro. A sala de shows está cercada por uma barreira de metal e barulhentas viaturas policiais. Jornalistas de todo o mundo se acumulam nos espaços limitados pela polícia em uma mistura atordoante de línguas. Câmeras estão todas voltadas para o prédio amarelo de janelas multicoloridas, estranhamente isolado, vazio e com painel de um show que nunca foi finalizado, mas que provavelmente marcou o fim desse histórico espaço da cena musical parisiense : Eagles of Death Metal.

Nas grades de proteção, turistas com smartphones e fotojornalistas com lentes imensas disputam o espaço para a melhor imagem, o melhor click de uma das piores lembranças que os parisienses vão guardar. Por detrás das árvores da praça que leva o mesmo nome da sala, o Bataclan ganha ares de um filme de terror. “Circulem, não fiquem parados, caminhem !”, ordenam os policiais. Imóvel, um jovem de cabeça baixa, apoiado na barra, é interpelado. “Vamos, ande !” Ele permanece indiferente. Ao ser tocado pelo policial, irritado com a ordem ignorada, o rapaz finalmente levanta a cabeça. Está aos prantos. “Je suis désolé”, levanta a mão como sinal de desculpa e parte em silêncio, se perdendo na multidão que circula em torno do prédio.

"Só queríamos chegar em casa vivos", conta brasileiro

No sentido contrário do rapaz, dois homens conversam em português sobre o único assunto falado hoje em Paris. Williamon Braz é engenheiro agrônomo do Mato Grosso e vive na capital francesa há três meses. O amigo, que não quis revelar o nome, é de Cabo Verde. Os dois moram no bairro e contam que estavam nos arredores do Bataclan ontem quando a notícia sobre o atentado durante o show começou a circular. O primeiro reflexo foi se dirigir rapidamente ao local.

“Quando chegamos aqui no Bataclan, ouvimos tiros, explosões e vimos a polícia isolar o espaço. Mas não ficamos muito tempo porque cruzamos com pessoas correndo armadas na rua”, relembra Williamon. Ele conta que, ao caminhar em direção ao metrô mais próximo, cruzou um homem com uma metralhadora na mão. “Ele fez sinal para ficarmos quietos e partiu correndo em direção às ruas mais estreitas do bairro. Logo atrás, vinham os policiais. Ficamos muito assustados, fomos embora rápido, só queríamos chegar em casa vivos”, diz.

Ao contrário de Williamon, nem todos os que estão no local querem falar do ainda recente e doloroso episódio. “Desculpe, não posso, estou muito emocionado até agora”, diz um francês, às lágrimas, diante da barra de segurança. Uma turista romena responde monossilábica a algumas perguntas. Finalmente diz que não quer dar depoimento, que não quer falar, que ainda é muito cedo para processar o que aconteceu. “Sou fã do Eagles of Death Metal. Estou em Paris passeando com meu namorado. Viemos ontem aqui tentar comprar ingressos para o show, mas estava lotado, não conseguimos entrar. Tudo o que posso dizer é que o que aconteceu é terrível”, resume.

Parisienses tentam entender o que aconteceu no Bataclan

Ao lado do caminhão de um canal de televisão alemão, dois homens na faixa dos 30 anos observam a movimentação, silenciosos. Passam vários minutos lado a lado sem trocar uma palavra. Levam um susto a serem abordados e, ainda hipnotizados com o corre-corre dos jornalistas e as sirenes da polícia, contam que são moradores do 11° distrito, “habitués do Bataclan”, dizem. Não estavam no show de ontem, mas vieram “tentar entender o que aconteceu”. “Meu sentimento é de preocupação e de revolta ao mesmo tempo, porque não consigo compreender o que ocorreu. Muitas perguntas permanecem sem respostas”, descreve Matthieu Chambrier.

Na calçada onde flores e velas são deixadas em homenagem às vítimas, um fotógrafo mira sua câmera para o chão. A cena é acompanhada por pedestres curiosos. Com o ato do profissional macabro, as pessoas se dão conta dos rastros de sangue que ainda permanecem pelo chão do boulevard Voltaire. Entre a calçada e o asfalto, uma luva de plástico manchada, resquício dos urgentistas de ontem, também entra na mira do fotógrafo. Ao presenciar a cena, ao lado dele, uma garota senta na calçada e chora. A alguns metros, diante das câmeras das televisões, um homem grita, visivelmente embriagado : “E, agora, o que vamos fazer ? O que mais vai acontecer ? É preciso reagir. Acorda, França !”

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