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Atentados desencadeiam nova onda de islamofobia na França

Por Gabriel Rocha Gaspar

Os atentados que deixaram 129 mortos na noite de sexta-feira em Paris desencadearam uma nova onda de islamofobia na França. Pichações anti-muçulmanas apareceram em várias mesquitas e salas de oração islâmicas por todo o país. Açougues hallal - em que a carne é preparada na forma ritualística exigida pelo Alcorão - foram depredados e organizações nacionalistas saíram à tona para reivindicar a expulsão de muçulmanos do território.

Na Bretanha, um comerciante norte-africano foi linchado por militantes de uma organização de extrema-direita. Mas o caso mais grave foi o de um turco, que tomou um tiro nas costas enquanto andava pela rua em Cambrai, no norte do país. O atirador, que se matou na mesma noite, estava com mais duas pessoas em um carro que ostentava a bandeira francesa. De acordo com o procurador municipal, a razão foi que o atirador "não gostou da cor da pele" da vítima.

Para Mohammed Mechmache, presidente do coletivo AC Le Feu, os atentados jogam mais combustível na já enorme fogueira da islamofobia: "Depois dos atentados, é claro que as pessoas olham pra gente de um jeito diferente na rua. Utiliza-se palavras muito violentas, como islamofascista", afirma.

O presidente de honra do Conselho Francês do Culto Muçulmano, Mohammed Moussaoui, acredita que o termo não tem qualquer rigor histórico e só serve à estigmatização: "o fascismo nos remete a uma historia sombria da Europa e, principalmente, do nosso país, uma vez que os franceses colaboraram com o nazismo e o fascismo em nome de uma certa concepção da França e de seus valores. E ninguém pensa em definir essa colaboração como francofascismo ou franconazismo. A associação da palavra França com o fascismo e o nazismo seria uma ofensa insuportável para todos nós, franceses".

Integração x estigmatização

O sociólogo Michel Wieviorka da Universidade Science Po, entrevistado pela RFI hispanofônica, avalia que os muçulmanos franceses vivam sob uma pressão extrema acerca de sua identidade, já que a maioria quer guardar sua religião para o espaço privado - e é exatamente isso que cobra deles o discurso da "integração", segundo o qual, para viver na França, eles devem se adaptar à cultura francesa, por mais vago que seja esse conceito.

Por outro lado, "há uma pressão da sociedade para que os muçulmanos digam que não são a favor da violência etc. Ou seja, isso os obriga a aparecer no espaço público enquanto muçulmanos que não querem a violência. É uma situação paradoxal: você deve ser como os outros, não aparecer como muçulmano no espaço público e, ao mesmo tempo, você deve dizer, neste mesmo espaço público, que, como muçulmano, você não gosta da violência".

Oportunismo de extrema-direita

Perspicaz na leitura deste conflito, o partido extremista Frente Nacional, de extrema direita, baseou sua campanha nos bairros de maioria muçulmana da cidade no slogan "escolha sua periferia". As alternativas são, de um lado, uma jovem de traços árabes com as cores da bandeira francesa pintadas sobre o rosto e, de outro, uma outra, cuja burca só permite entrever os olhos. O muçulmano "integrado" representa a paz e a liberdade, enquanto o muçulmano "não-integrado", é a barbárie, a violência, o terrorismo. Mas claro que nada no mundo é binário. O véu que cobre os cabelos de uma muçulmana não pode ser transformado em símbolo de terrorismo porque a imensa maioria das mulheres que o usam não têm qualquer simpatia pelo jihadismo violento.

Mas o discurso maniqueísta oferece uma possibilidade simples de interpretação do mundo e deixa a Frente Nacional, assustadoramente bem colocada nas pesquisas de intenção de votos para as eleições regionais de 6 de dezembro. Para Mechmache, o extremismo islâmico é um ótimo catalizador do discurso da líder da sigla, Marine Le Pen: "As pessoas que não pensam, que não conseguem ler as entrelinhas, que não compreendem as questões em jogo podem cair facilmente em extremismos - e também existem extremismos políticos. Eles pensam que um político extremista radical pode resolver o problema deles. Mas eu não acredito nisso. As coisas só vão mudar pela ação do povo. Só a sociedade civil, os cidadãos, são capazes de mudar as coisas".

E essa mudança certamente não passa pelo suicídio da juventude seduzida pela retórica apocalíptica do grupo Estado Islâmico.

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