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Racismo Survival International Tribos indígenas

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Organizadores das Paralimpíadas são indicados ao prêmio "Racista do Ano"

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Pai e filho da tribo brasileira Suruwavá, acusada de infanticídio por missionários evangélicos © Adriana Huber/Survival

A ONG britânica Survival International anunciou nesta terça-feira (20) os quatro nomeados para o seu tradicional prêmio “Racista do Ano”, laureado a quem manifestou maior preconceito contra um povo indígena. Neste ano concorrem personalidades do Brasil, Índia, Botsuana e Austrália.


No dia 15 de setembro, a Survival International já havia publicado um artigo em seu site denunciando os organizadores dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 por acusarem os indígenas brasileiros de infanticídio, abuso sexual, estupro, escravidão e tortura, descritos como como “práticas tradicionais", dando a entender que essas violências são comuns em todas as tribos.

O que levou a ONG a selecionar os organizadores foi uma matéria publicada no site dos Jogos, na qual são anunciados os nomes alguns participantes do revezamento da Tocha Paralímpica, que começou no dia 1° de setembro, em Brasília. Entre eles, é citada uma garota índia de 13 anos, Iganani Suruwaha, nascida na Amazônia, na tribo Suruwahá, com paralisia cerebral. Na explicação, o site das Paralimpíadas descreve que a mãe da menina, Muwaji Suruwahá, fugiu da aldeia para garantir a sobrevivência do bebê doente, dando a entender que seria morto pelos outros membros.

Os organizadores da competição também apoiaram a “Lei Muwaji,” um projeto de lei que está sendo promovido por missionários evangélicos como forma de separar famílias indígenas, segundo a Survival International. Em agosto de 2015, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 1057/07, conhecido como Lei Muwaji, o nome da mãe da indiazinha.

Em uma consulta sobre o projeto de lei organizada pela UNICEF, um indígena brasileiro disse: “Os brancos nos matam e não são presos. Estamos frente a uma lei racista: nossos assassinos não são incriminados por uma lei específica, e nós, sim.”

Aborígenes "irresponsáveis"

Charge do cartunista Bill Leak retrata pai aborígene bêbado © Bill Leak/ The Australian

O cartunista australiano Bill Leak foi bastante criticado depois de publicar uma charge no jornal The Australian em que degrada a imagem de um pai aborígena, retratando-o como irresponsável e alcoólatra.

A charge mostra um policial segurando um menino que deve ter feito algo errado e o oficial diz ao pai que ele deve falar ao filho sobre responsabilidade pessoal. O pai aborígena, com uma lata de cerveja na mão, responde: "Sim, claro! Como é o nome dele, mesmo?"

A charge teve tamanho impacto que o Ministro para Assuntos Indígenas da Austrália, Nigel Scullion, pediu ao jornal que "esteja mais ciente sobre o impacto que tais charges podem ter em comunidades indígenas… Não existe espaço para esteriótipos racistas.”

O cartunista se recusou a pedir desculpas.

 Bosquímanos "primitivos"

Outro forte candidato ao prêmio é o presidente da Botsuana, Ian Khama, que declarou que os Bosquímanos da Reserva do Kalahari Central vivem vidas “atrasadas,” “uma vida primitiva de privação” e uma “vida primitiva de uma era passada.” Os Bosquímanos são povos indígenas africanos, expulsos de suas terras em 2002.

O governo do general Khama nega aos Bosquímanos o acesso à sua terra ancestral e desde então a maioria deles vive na pobreza em acampamentos governamentais, apesar de uma decisão judicial do Supremo Tribunal em 2006 ter afirmado que eles têm o direito de reocupar sua terra. Eles são acusados de “caça furtiva” quando caçam para alimentar suas famílias, e são baleados “à primeira vista” por caçarem antílopes para se alimentarem.

Adivasis "malignos"

O quarto indicado é o cineasta indiano Gurmeet Ram Rahim Singh, criador de “MSG-2 the Messenger”. Trata-se de um filme que apresenta os indígenas da Índia (conhecidos como “Adivasis”) como “malignos” e propõe sua integração forçada com a sociedade nacional indiana.

O ativista de direitos indígenas, Gladson Dungdung, declarou que condena fortemente o filme. "Peço que ele seja banido. O filme retrata os Adivasis como demônios. Isso também claramente expõe a mentalidade de não-indígenas que têm uma perspectiva racista contra os Adivasis. Temos que parar com essa humilhação e degradação.”

Os povos indígenas são retratados como atrasados e primitivos simplesmente porque suas vidas comunais são diferentes. Sociedades industrializadas os submetem a violência genocida, escravidão e racismo para que possam roubar suas terras, recursos e mão de obra em nome de “progresso” e “civilização", observa Dungdung.

Para o diretor da Survival, Stephen Corry, a atitude dos indicados ao prêmio são dignas da época colonial. "A ideia de que povos inteiros são “atrasados,” “miseráveis” ou “moralmente degenerados” sempre foi usada como uma desculpa para roubar suas terras e forçá-los a integrar-se à sociedade nacional contra suas vontades", argumenta o defensor dos índios.