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Russos ainda não estão prontos para enterrar a múmia de Lênin

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O corpo de Lênin está embalsamado em um mausoléu de mármore, aos pés do Kremlin, há 93 anos. AFP

Símbolo máximo da Revolução de 1917, Vladimir Ilitch Ulyanov, ou Lênin, é figura presente no imaginário coletivo russo. O revolucionário, que desembarcou cem anos atrás na estação Finlândia, em São Petersburgo, onde ainda há uma imensa estátua sua apontando para o futuro, é lembrado em Moscou em centenas de placas de bronze na entrada dos edifícios onde vivera ou por onde passara em algum momento da sua vida.


Vivian Oswald, correspondente da RFI, especial de Moscou

 Na estação de metrô Biblioteca Lênin, na capital, a imagem do líder revolucionário na parede de mármore, mantem-se grande, porém silenciosa, em meio ao burburinho dos milhões de moscovitas que passam por ali apressados diariamente. O “Vovô Lênin”, como o chamam saudosistas, ou aqueles que aprenderam a reverenciá-lo desde os tempos de escola, tem lugar indiscutível na Rússia contemporânea. E as cerca de seis mil estátuas em sua homenagem espalhadas pelo país, das quais 150 só em Moscou – onde o bolchevique é nome de uma das principais artérias da cidade   e outras 77 em São Petersburgo, confirmam que deve continuar assim por um bom tempo.

Isso explica por que, nem o presidente Vladimir Putin, nem a Igreja Ortodoxa, consideram a hipótese de retirar o corpo embalsamado do líder socialista do Mausoléu de mármore, aos pés do Kremlin, onde está há 93 anos. Pelo menos por enquanto. Desde a Perestroika, discute-se a necessidade de enterrá-lo ou não. Governo e clérigos concordam que a sociedade ainda não estaria pronta para apagar uma das principais memórias da revolução. Seria tocar em uma ferida recente demais, na avaliação de historiadores. “Enquanto o Kremlin de Putin fez da Igreja Ortodoxa um dos pilares do Estado Russo, ele não pretende aborrecer o partido comunista. Nem a Igreja Ortodoxa quer isso”, disse o especialista do Centro Carnegie Andrei Kolesnikov.

Recentemente, a Igreja veio a público para repetir mais de uma vez que não espera enterrar o corpo de Lenin tão cedo, ecoando, assim, o discurso de “reconciliação” que tem sido pregado pelo governo. “O ideal seria enterrá-lo. Mas é preciso que o país esteja preparado. Não tem que ser agora. Só quando esse assunto deixar de dividir as pessoas”, afirma Vladimir Legoida, presidente do Departamento Sinodal para a Interação da Igreja com o Público e Mídia.

O assunto tem sido tratado com o máximo de cuidado pelos ortodoxos. Em março deste ano, por ocasião das comemorações do centenário da revolução, o Sínodo dos Bispos da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia publicou uma declaração em que dizia que “a libertação da Praça Vermelha” dos restos do maior perseguidor e executor do século XX e a destruição dos seus monumentos “será o símbolo da reconciliação do povo russo com o Senhor”. Rapidamente, representantes do Patriarcado de Moscou foram a público lembrar que esta não é a sua posição, advertindo que o que os vizinhos próximos estavam usando o termo “descomunização” como uma espécie de “desrrussificação”.

Presença da estátua na Praça Vermelha divido opiniões

“Entendemos que a sua presença na Praça Vermelha não tem nada a ver com as tradições cristãs. Mas só podemos levantar a questão do enterro, quando uma campanha de “descomunização” e “dessovietização” tiver sido encerrada no território pós-soviético. E, depois disso, quando levantarmos a questão, temos de nos basear em elementos apenas religiosos, e não políticos”, disse Alexander Shchipkov, vice-presidente do Departamento Sinodal para a Interação da Igreja com o Público e Mídia, em artigo publicado em março na agência russa Interfax.

A despeito de todas as divisões que o tema ainda possa inspirar, a verdade é que, aos poucos, o culto à imagem do líder bolchevique vem perdendo a intensidade. As novas gerações não têm por Lênin o mesmo apreço que tinham seus pais e avós. Uma pesquisa de opinião realizada pelo Centro Iuri Levada em abril deste ano mostra que 58% da população já concordaria em tirar o corpo de Lênin do mausoléu e enterrá-lo. Mesmo assim, a maioria (78%) é contra retirar o monumento em sua homenagem da Praça Vermelha, o coração político do país.

Stálin é considerado pelos russos a figura mais importante da história

Mas se ainda há muitas estátuas pela Rússia (e fora dela), elas já foram mais numerosas. Estima-se que sete mil peças estavam espalhadas pelo país até 1991. Há pelo menos uma década, pesquisas de opinião feitas pela televisão e por centros de pesquisa mostram que o ditador Josef Stálin é considerado pelos russos a figura mais importante da história.

Lênin aparece entre os primeiros dez da lista, mas não em primeiro lugar. A mais recente, publicada em junho deste ano pelo Centro Iuri Levada mostra que 38% dos entrevistados apontaram Stálin, contra 34% que indicaram Vladimir Putin e o poeta Alexander Pushkin e 32%, Lênin. Esta foi a primeira vez que o atual presidente integrou a lista.

Acredita-se que o assunto será pacificado no longo prazo. Até lá, como vem acontecendo nos últimos anos, cada aniversário do bolchevique ou da revolução trará de volta para o centro das atenções a discussão sobre o que fazer com a múmia.