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A seleção francesa é um time africano?

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Jogadores franceses festejam titulo mundial, 15 de julho de 2018 REUTERS/Damir Sagolj

A vitória dos comandados de Didier Deschamps na Copa do Mundo foi seguida de uma avalanche de comentários racistas nas redes sociais sobre as origens dos jogadores. Ao contrário do que muitos pensam, dos 23 jogadores, apenas dois nasceram fora da França.


Raphael Morán, da redação RFI em espanhol

“Não foi a França que ganhou a Copa, foi a África”. Essa frase foi lida com frequência nos últimos dias nas redes sociais. A presença de muitos jogadores de origem africana na seleção levou a muitos comentários racistas em diversos países europeus. Antes mesmo da final entre França e Croácia, o ex-jogador croata Igor Sticmac, convidado pela federação de seu país para estar presente na Rússia, fez a seguinte pergunta em sua página no Facebook: “alguém sabe contra quem jogaremos a final? ”. O comentário estava acompanhado de uma lista do site Sporf publicada no Twitter onde se via a lista de vários jogadores franceses ao lado de bandeiras africanas, subentendendo que muitos deles não são de nacionalidade francesa.

Comentários racistas

“É um comentário profundamente racista que não reflete a realidade do time francês. É injusto pois mesmo se, de fato, muitos pais nasceram em outros países, todos os jogadores são franceses”, afirmou Carole Gomez, pesquisadora do IRIS, o Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas.

Vários comentários do mesmo tipo foram publicados em nossas redes sociais. “É um roubo de talento descarado que a França faz com a África, antes roubavam recursos naturais, agora levam esses rapazes e suas famílias”, disse um internauta. Outro classificou os “bleus” de “seleção africana internacional” e afirmou que era “preciso verificar o local de nascimento da maioria dos jogadores”

As verdadeiras origens

A realidade é bem diferente. Dos 23 jogadores selecionados por Didier Deschamps para representar o país na Rússia, 21 nasceram na França, como se pode ver na lista publicada pela Federação Francesa de Futebol (FFF). Kylian Mbappé nasceu por exemplo em Bondy, ao norte de Paris, enquanto que Paul Pogba é natural de Lagny-sur-Marne. Ngolo Kanté nasceu em Paris e Blaise Matuidi em Toulouse.

Somente dois jogadores nasceram em outro país: Steve Mandanda (República Democrática do Congo) e Samuel Umtiti (Camarões). Ambos chegaram na França aos dois anos de idade. Cresceram e tiveram a educação em escolas francesas. Além de terem tido toda a formação esportiva em clubes de bairro onde se destacaram até chegar ao mais alto nível.

A origem dos jogadores e a religião de cada um deles são temas extremamente delicados na França, onde as feridas do colonialismo continuam abertas. A vitória de 1998 foi interpretada na época como um triunfo da França “Black, Blanc, Beur”, ou seja, negra, branca e árabe.

As críticas da extrema direita

A extrema direita sempre criticou essa diversidade. O ex-líder do partido Front National (Frente Nacional, em português), Jean-Marie Le Pen, chegou a dizer em 2006 que o país não se “sentia representado em sua seleção” e criticou a presença de jogadores “de cor”.

Este ano, o partido, liderado por Marine Le Pen, preferiu a discrição. Chegaram a elogiar o espírito de fraternidade que havia no time, e que foi considerado como um dos fatores chave da vitória francesa.

Deschamps: “a diversidade é uma riqueza”

Didier Deschamps reivindicou a diversidade cultural de seu time. “A França tem jogadores de origem africana e dos territórios ultramarinos. Sempre foi uma riqueza para o futebol e para todos os esportes franceses”, declarou o treinador. Já os jogadores, como Pogba, Griezmann e Mbappé, por diversas vezes, declararam seu amor à República Francesa. A frase “Vive la République et vive la France”, tradicional nos discursos presidenciais, se tornou um bordão desta seleção que conquistou sua segunda estrela.