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“Estrada dos Bálcãs” é o novo palco da crise migratória na União Europeia

Por RFI

A crise migratória vivida pela Europa já é considerada a maior desde a Segunda Guerra Mundial. Mas o drama de milhares de pessoas que tentam chegar ao norte do continente parece ter se deslocado. Se, no início do ano, eram as imagens de milhares de pessoas tentando atravessar o Mar Mediterrâneo que chocavam a opinião pública, agora o caminho dos refugiados é por terra.

Mais precisamente, a “Estrada dos Bálcãs”, como está sendo chamada a rota percorrida por milhares de pessoas, principalmente na última semana, entre a Turquia e a Hungria, passando por Grécia, Macedônia é Sérvia. Pelo menos 102 mil pessoas percorreram a Estrada dos Bálcãs neste ano. A imensa maioria é de sírios fugindo da guerra em seu país.

“Houve tragédias no Mediterrâneo Central, próximo à costa da Líbia, o que gerou pânico entre algumas comunidades, já que esta é uma rota muito mais perigosa e também cara”, diz Vincent Cochetel, diretor do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, para explicar o deslocamento do fluxo de migração. A nova rota começa na Turquia, onde os imigrantes vão de barco até às ilhas gregas.

“Podemos perguntar por que a Turquia não faz mais para ajudar, mas o país já tem quase 2 milhões de refugiados sírios em seu território”, afirma Cochetel. “Estes 180 mil que chegaram à costa grega representam apenas uma pequena proporção de todos os sírios que transitaram pela Turquia”, completa o dirigente da ONU.

O périplo dos imigrantes enfrenta as maiores dificuldades nas fronteiras. No início da semana, o governo da Macedônia tentou bloquear a passagem, mas acabou cedendo. A enviada especial da RFI ao país descreve um cenário chocante de pobreza e dificuldades, mas também registrou a solidariedade das populações locais, como o depoimento de um macedônio que tentava ajudar os passantes. “90% destes migrantes são pessoas boas”, disse. “Eles tem diplomas de engenheiro ou médico. Mas, por causa da guerra, tiveram que deixar o seu país.”

22 dias de viagem

Do lado dos imigrantes sírios, os depoimentos são tristes, mas de esperança no futuro. A maioria deles só quer poder chegar até os países mais ricos do continente e reconstruir suas vidas. Ficar em um destes países dos Bálcãs está fora de questão. O salário mínimo na Macedônia, por exemplo, é de apenas 350 euros. “Eu espero chegar à Alemanha ou ao Reino Unido, porque eu estudava química na Universidade de Damasco”, diz um sírio. “E quero poder continuar estudando. Se eu ficasse na Síria, eu teria de ir para o exército, mas eu não quero, porque a situação e a guerra estão muito difíceis.”

Outro cidadão sírio, que está viajando há 22 dias, descreve as dificuldades da Estrada dos Bálcãs: “Algumas pessoas nos ajudaram, outras não. Fiz e perdi amigos neste caminho. Alguns nos olham torto, não gostam da gente, parecem sentir nojo. Eu lamento, mas quando se caminha por tanto tempo, a sua aparência não fica boa. Mas normalmente não somos assim.”

Nesta quinta-feira (27), líderes dos países afetados se encontraram em Viena para debater a crise. A União Européia concederam € 2,5 bilhões para ajudar os países dos Bálcãs a lidar com o problema. A Alemanha também disse que não se recusará a receber os exilados sírios que fogem da guerra, mas alertou que a mesma política não vai valer para toda e qualquer pessoa que emigre por motivos diferentes.

“Estamos diante de um fluxo de refugiados como o da Segunda Guerra Mundial ou nas guerras da ex-Iugoslávia”, disse o sociólogo Pedro Góis, professor e investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em entrevista à repórter Liliana Henriques. “Portanto temos que reagir de acordo com o estado de emergência, que não é o estado normal da Europa”, completa.

Para Góis, o protagonismo para gerenciar a crise terá inevitavelmente que vir dos países ricos. “A Alemanha mostra números para dizer que não pode receber mais gente, mas não procura neste caso a liderança que tem em outros processos”, critica. “Itália, França e Espanha não estão em condições de acolher imigrantes, dada a sua situação econômica”, diz o sociólogo.
 

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