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Le Monde Síria Exôdo

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Saiba quais são as quatro razões do êxodo dos refugiados sírios

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Refugiados sírios vão a pé da Turquia à Grécia Reuters/Osman Orsal

O jornal Le Monde publicou nesta quinta-feira (24) uma reportagem mostrando as quatro razões do êxodo dos refugiados sírios. O texto começa dizendo que não haveria uma crise de refugiados sem a crise na Síria. Uma grande parte das pessoas que chegaram à Europa pelo mar Mediterrâneo desde janeiro são sírias. A maioria passou pela Turquia, país vizinho, antes de entrar em território europeu pela Grécia. Algumas apenas transitaram pela Turquia, durante dias, semanas ou meses, para se preparar para a segunda parte da viagem. Outras, a grande maioria, moravam no país há vários anos e decidiram buscar uma nova terra de acolhimento.


Para explicar esse êxodo gigantesco, os sírios recorrem mais ou menos às mesmas palavras: "Perdemos toda a esperança". Uma fórmula que abarca uma série de razões, nas quais se misturam a intensificação do conflito - o motivo número 1 da fuga-, mas também fatores conjunturais, como as restrições crescentes impostas pelos países vizinhos da Síria, a campanha de alistamento militar lançada pelo regime de
Bachar Al-Assad e o esgotamento da ajuda humanitária. Veja os detalhes.

1. A exasperação do conflito

Eles vivem há um, dois, três anos na Turquia, às vezes a apenas alguns quilômetros de distância da Síria. Mas, após o início do quinto ano de conflito, os refugiados instalados em Istambul, nas grandes cidades da Anatólia e nos campos ao longo da fronteira chegaram à conclusão de que não poderão voltar em breve a seu país. Depois do período revolucionário em 2011 e 2012, quando houve uma onda de esperança, e a partir do começo da guerra civil - dolorosa, mas inevitável, segundo observadores- , a Síria se dirige a um cenário parecido ao da Somália, baseado em uma atomização do território e em uma multiplicação do número de grupos armados.

O conflito é prisioneiro de uma lógica de milícia, à qual se soma a guerra por procuração na qual se opõem os campos pró-iraniano e pró-americano. É impossível nesse contexto encontrar uma solução. Os barris explosivos lançados pelo exército sírio sobre a região de Alepo e as atrocidades cometidas pelo grupo Estado Islâmico (EI) nessa zona continuam a empurrar milhares de refugiados à Turquia, levando os que já moram lá a buscar um novo país para se instalar. Para viver no exílio, melhor que seja em um país que ofereça perspectivas de futuro - essa é a lógica dos sírios.

2. Tensão crescente na Turquia

De todos os países vizinhos da Síria que abriram as portas aos refugiados, a Turquia é paradoxalmente aquele que foi o mais generoso com eles. Os sírios dispõem de acesso gratuito à educação e aos serviços médicos. Os campos, que abrigam 15% dos 2 milhões de refugiados registrados no país, são elogiados pela limpeza e pela qualidade dos serviços. Mas, nas cidades, onde residem as pessoas da classe média síria, a situação se deteriorou muito. A alta exponencial dos aluguéis e a dificuldade cada vez maior de encontrar um emprego fragilizaram muitas famílias.

O nível muito medíocre das escolas abertas na Turquia pela Coalizão Nacional Síria (CNS), a principal plataforma de oposição, inquieta os pais, assim como a influência exercida sobre esses estabelecimentos pela Irmandade Muçulmana, o principal grupo do CNS. A retomada este verão dos enfrentamentos entre soldados turcos e militantes curdos também alimentou o fluxo de partidas.

"Essa violência assustou muito os refugiados, que tiveram a impressão de que o perigo se aproximava de novo", diz Saïd Eïdo, um militante dos direitos humanos. Outro fator explicativo: o anúncio pelas autoridades turcas, no início do ano, do iminente fechamento da fronteira com a Síria. "O risco de que a Turquia feche as portas desencadeou um fluxo de refugiados. Em alguns meses, meio milhão de sírios chegaram, notadamente da zona de Alepo, sob controle do regime. Muitos deles estão atualmente na Europa.

3. Campanha de alistamento militar

Uma parte dos sírios que desembarcaram este verão na Europa veio de Damasco. Todos os dias, um ônibus lotado liga a capital síria ao porto de Trípoli, no norte da Líbia. De lá os passageiros embarcam em uma balsa que os leva às ilhas gregas. Se os sírios decidiram deixar Damasco, o santuário do regime Assad, foi pelo cansaço diante de uma guerra interminável, que os arruinou, e pela vontade de fugir do abismo no qual todo o país parece ter caído. Para alguns jovens, em idade de servir o exército, emigrar é também a melhor maneira de fugir das patrulhas policiais que buscam os refratários: uma grande campanha de alistamento militar foi lançada no final de 2014, com o objetivo de aparelhar o exército, desfalcado pelas perdas e deserções.

4. Ajuda humanitária reduzida

Não são apenas os refugiados que estão esgotados por cinco anos de guerra. As agências humanitárias também estão. O valor dos cupons alimentícios distribuídos todos os meses pelo programa mundial de alimentação passou de US$ 40 no início a US$ 13 atualmente. Enquanto as necessidades não param de aumentar, o número de destinatários das ajudas caiu a um terço este ano, de 2,1 milhões a 1,4 milhão. A causa: o sub-financiamento crônico das agências humanitárias. No mês de agosto, a ONU recebeu apenas 37% dos US$ 4,5 bilhões do orçamento de 2015 para ajudar os refugiados sírios.