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Arábia Saudita Irã xiitas sunitas Execução Pena de morte Grupo Estado Islâmico

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Aiatolá do Irã promete "vingança divina" à Arábia Saudita

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O aiatolá Ali Khamenei durante discurso a guardiães da revolução iraniana em setembro de 2015. AFP PHOTO / HO / KHAMENEI.IR

O guia supremo da revolução islâmica iraniana, aiatolá Ali Khamenei, disse neste domingo (3) que a "mão divina" vai vingar a morte do religioso xiita Nimr Baqer Al Nimr, de 56 anos, executado ontem na Arábia Saudita. A aplicação da pena capital ao religioso e a outros 46 presos condenados por "terrorismo antiárabe" provoca intensa revolta nas comunidades xiitas do Oriente Médio.


Fiéis xiitas revoltados com a decisão de Riad incendiaram no sábado (2) a embaixada saudita em Teerã e o consulado em Machhad, na região noroeste do país. As autoridades iranianas anunciaram ter detido 40 pessoas envolvidas no incêndio da embaixada, mas continuam acusando a Arábia Saudita de ter cometido um grave erro.

"O sangue injustamente derramado do mártir oprimido terá consequências, e a vingança divina recairá sobre a classe política saudita", afirmou Khamenei. Riad replicou chamando o Irã de país "sem vergonha, por apoiar o terrorismo e executar sentenças de morte sem um quadro legal claro".

O presidente iraniano, Hassan Rohani, condenou a execução de Nimr, mas disse também que as agressões às representações diplomáticas sauditas são "totalmente injustificáveis".

Religioso executado criticava monarquia saudita

Nimr era um crítico do regime sunita saudita, que ele acusava de marginalizar a minoria xiita, estimada em 10% da população, residente principalmente no leste do país. Quase a totalidade dos homens executados ontem eram prisioneiros sunitas, mas a aplicação da pena de morte ao xeque Nimr, e a outros três xiitas acusados de participação em agressões contra policiais entre 2011 e 2013, tem o efeito de lenha na fogueira nessa região instável do planeta.

No Iraque, onde o governo majoritariamente xiita é próximo do Irã, personalidades políticas e religiosas defenderam a ruptura imediata das relações diplomáticas com a Arábia Saudita. O grande aiatolá Ali Sistani, que é o mais alto dirigente xiita no Iraque, condenou o que chamou de "uma agressão injusta". O líder xiita iraquiano Moqtada al-Sadr convocou os xiitas a voltarem às ruas neste domingo no Iraque e nos demais países do Golfo.

Incidente enfraquece combate ao grupo Estado Islâmico

Analistas estimam que a execução do religioso xiita enterra as esperanças de formação de uma coalizão regional, unindo sunitas e xiitas, para combater o grupo terrorista Estado Islâmico, que controla parte do Iraque e da Síria.

Os Estados Unidos demonstraram preocupação com a questão dos direitos humanos na Arábia Saudita. O porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, considera que o ato de Riad pode provocar "um aumento da tensão" entre as correntes religiosas na região, num momento em que "é fundamental reduzir" esses atritos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou estar "profundamente consternado" com a execução de Nimr e fez apelos de calma aos dirigentes da região, para evitar novas violências sectárias.

Boicote ao Irã

Com a execução de Nimr, a monaquia saudita dá uma prova de força interna e externa. A família real Al Saoud teme ser derrubada pelos jihadistas sunitas da Síria e do Iraque, e não perdoa os Estados Unidos por terem assinado um acordo nuclear com o inimigo iraniano. Olivier da Lage, redator-chefe da RFI e autor de vários livros sobre o Oriente Médio, vê o ato saudita como um boicote à reconciliação do Irã com as potências ocidentais, além de demonstrar a independência da monarquia em relação aos Estados Unidos.

Os aliados ocidentais que fornecem armas ao reino saudita, entre eles os Estados Unidos e a União Europeia, disseram que não é hora de acirrar o conflito religioso e sim de redobrar os esforços diplomáticos para combater a organização Estado Islâmico.