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Suicídio, ataque terrorista: o lado B dos aplicativos de vídeos ao vivo

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REUTERS/Murad Sezer

Em um intervalo de poucas semanas, a França ficou chocada com dois episódios que alertaram para os riscos de aplicativos de transmissão ao vivo de vídeos. Primeiro, uma jovem de 19 anos se suicidou diante da câmera do celular, jogando-se em frente a um metrô e enviando as cenas pelo Periscope. Agora, foi a vez de um extremista retransmitir imagens do corpo de uma policial que ele acabara de matar e exaltar o grupo Estado Islâmico, por meio do Facebook Live.


No vídeo de 12 minutos, o jihadista mostra o corpo de uma das vítimas, Jessica Schneider, mulher do policial Jean-Baptiste Salvaing, também morto pelo terrorista. O homem aproveita para convocar os simpatizantes à causa a matar uma série de alvos, como policiais, militares e jornalistas. Os nomes de uma dezena de pessoas são citados, em um vídeo postado ao vivo na timeline dos seus seguidores e divulgado por um dos veículos de propaganda da organização extremista.

As duas tragédias provocam questionamentos sobre os usos inesperados das ferramentas, cada vez mais populares. Pelos aplicativos, celebridades adoram se expor para os seus seguidores, manifestantes usam os aplicativos para difundir imagens de protestos, adolescentes atendem a “desafios” lançados pelas redes sociais, anônimos postam cenas banais do cotidiano.

O problema é quando a diversão se transforma em drama, em exemplos que se se repetem a uma frequência preocupante. Em março, três homens haviam estuprado uma jovem em Londres, aos olhos de mais de 2.000 internautas que acompanharam o crime pelo Periscope. O aplicativo é do Twitter, por onde o link para o vídeo foi compartilhado, sem qualquer restrição.

Por mais estarrecedor que seja, o fenômeno não é novo: quando as webcams se popularizaram, nos anos 2000, foram usadas para transmitir suicídios. A diferença é que, hoje, os smartphones e a expansão da internet facilitam o uso inapropriado do vídeo, além de atingirem um número muito maior de internautas.

Monitoramento do conteúdo pelas empresas é frágil

As gigantes digitais por trás das ferramentas de vídeo ao vivo alegam reforçar constantemente o controle sobre o conteúdo inapropriado. O Periscope, por exemplo, aperfeiçoou a moderação de comentários dos vídeos – mas daí a evitar a retransmissão de um crime, é um outro passo bem mais complexo.

No Facebook, o desafio é ainda maior: a moderação de conteúdo indevido não é imediata e depende da sinalização dos usuários. Dessa forma, não há controle sobre os vídeos postados ao vivo, uma ferramenta anunciada em abril. O YouTube, por sua vez, promete lançar em breve o seu serviço de streaming.

Atuação da polícia é limitada

Tão logo as imagens são identificadas como repreensíveis, são retiradas do ar. Na França, as autoridades podem exigir da empresa o nome dos usuários que publicaram o conteúdo. Os internautas, por sua vez, podem ter problemas com a justiça, pelo crime de “não assistência a pessoa em perigo”, previsto no Direito francês.

Especialistas pedem que a legislação acompanhe com mais rapidez as mudanças da sociedade em hábitos digitais, obrigando as empresas a fornecer o máximo de informações sobre criminosos que tenham usado os aplicativos para postar delitos. A mudança, porém, esbarra em um princípio caro às companhias: a da segurança dos dados dos usuários.