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Contra aquecimento global, cientistas fazem “biblioteca do gelo”

Por Lúcia Müzell

Faz décadas que os especialistas alertam sobre os riscos dos derretimentos das geleiras, uma das consequências do aquecimento global. Mas nem todo mundo sabe que, além de influenciar no clima mundial, as camadas de gelo guardam informações preciosas para a compreensão das mudanças climáticas.

É para preservar esses dados que um projeto internacional ambicioso começou a ser colocado em prática: a preparação de uma imensa “biblioteca do gelo”, que vai ser instalada no local mais apropriado do planeta, a Antártida. A megaoperação se inicia na França e, no ano que vem, migra para os Andes bolivianos.

A primeira etapa é em Col du Dôme, a 4.300 metros de altitude, nos Alpes franceses. Durante todo o mês de agosto, cientistas franceses, italianos, americanos e russos vão coletar amostras de 92 milímetros de diâmetro e 130 metros de comprimento.

“O objetivo do projeto é extrair pelo menos três amostras cobrindo todas as camadas de gelo, para analisarmos uma delas e recolher o máximo de dados, que serão disponibilizados para cientistas especializados neste assunto. As duas outras serão enviadas para o centro da Antártida, para serem guardadas para as próximas gerações”, explica Patrick Ginot, coordenador da equipe e pesquisador do Laboratório de Glaciologia e de Geofísica do Meio Ambiente, da Universidade de Grenoble-Alpes. “Essas amostras serão preservadas do aquecimento global.”

Informações “únicas”

A operação é delicada e conta com equipamentos sofisticados, levados ao alto da montanha de helicóptero. Todo o esforço vale a pena porque as camadas de gelo armazenam dados usados por especialistas em climatologia – um patrimônio científico que o aumento da temperatura do planeta ameaça de extinção ou, pelo menos, de modificações.

Com essas amostras, os pesquisadores são capazes de coletar dados sobre a quantidade e a natureza de poluentes, assim como a ocorrência de fenômenos climáticos como o El Niño. “É um arquivo único sobre o clima e as condições ambientais do passado. É realmente excepcional, em comparação com outros arquivos, como sedimentos marítimos ou de lagos. São materiais que não armazenam o mesmo tipo de informações”, nota. “Começamos fazer isso já agora porque descobrimos que, em alguns lugares, como os Alpes franceses, o aquecimento está chegando perto de derreter algumas áreas. Se isso ocorrer, perderemos as informações guardadas durante séculos.”

Bolívia é a próxima parada

O Illimani, Bolívia

A próxima etapa do projeto, no ano que vem, será nas montanhas de Illimani, na Bolívia, onde a equipe de Ginot prepara desde agora os passos seguintes da epopeia. Cada geleira tem, por assim dizer, a sua marca registrada pela história.

“Já sabemos hoje que o derretimento das geleiras pode chegar a 600 metros nos Andes. No Col du Dôme, encontraremos informações preciosas sobre as emissões industriais. Mas, na Bolívia, teremos dados sobre históricos muito valiosos sobre as queimadas na Amazônia”, afirma Ginot.

O projeto vai culminar em 2020, quando o todo o material recolhido será transportado para a Antártida. No total, o orçamento previsto é de € 3 milhões - uma cifra que, esperam os cientistas, deve aumentar graças a uma campanha de financiamento coletivo, a ser lançada em setembro.

“Vamos estocar tudo isso por alguns séculos em uma imensa caixa, um local que não precisa de energia para ser mantido. É um lugar seguro, afastado de qualquer problema que poderia acontecer e com uma temperatura mínima de -50°C - não poderia ser melhor para um armazenamento de gelo a longo prazo”, indica o coordenador da pesquisa.

Os polos se constituem de gelo, mas não são capazes de acumular dados tão relevantes sobre a poluição do planeta por estarem distantes demais das fontes de emissões. As previsões dos cientistas são de que, em diversos locais do globo, como os Alpes, as geleiras situadas em baixa altitude desaparecerão até o final deste século. Ginot compara o fenômeno a queimar as páginas de raros livros de história.

 

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