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"Crianças iraquianas ainda têm sonhos": João Castellano, fotógrafo

Por Leticia Constant

O fotógrafo paulista João Castellano passou seis meses no Iraque. Nesta entrevista, ele fala sobre sua experiência e seus trabalhos, e também sobre seus traumas e o sonho de voltar, um dia, para realizar um trabalho sobre as pessoas de lá.

João Castellano passou seis meses no Iraque. A maior parte do tempo ficou em Erbil, no campo de refugiados, a 60 km de Mossul, que acaba de ser arrancada das mãos do grupo Estado Islâmico pelas forças iraquianas com o apoio da coalizão. "Foi minha primeira vez em uma zona de conflito e a impressão que eu tenho é que parece que não tem fim, a destruição, para onde você olha tem a destruição. E o que é mais louco pra mim, o que mais me chama a atenção, é que para as pessoas isso é normal, parece que eles estão acostumados com isso, é uma situação meio estranha...", ele diz.

João teve pouco contato com os deslocados, que passavam pelo check point com uma segurança muito rígida para ver se havia membros do grupo Estado Islâmico infiltrados, e depois eram colocados em caminhões rumo ao campo de refugiados. "Nos campos de refugiados, tive alguns contatos com a população para fazer alguns trabalhos, mas eles não têm muita esperança, está tudo destruído, a maioria com quem eu conversei queria ir embora do Iraque", conta Castellano, lembrando que a cidade de Mossul está muito perigosa, com células jihadistas acordando e podendo atacar a qualquer momento. "Fiz um trabalho com refugiados cristãos no campo de Erbil, 90% querem ir embora".

As crianças também são muito afetadas pela destruição. "Não que estejam acostumadas, esta não é a palavra", mas João pensa que, apesar de tudo, elas são crianças, e esquecem...

Antes de voltar para o Brasil, o fotógrafo fez um trabalho com 20 crianças iraquianas, perguntando o que sonham ser. "Uma só falou que queria ser soldado, uma só falou que quer lutar contra quem fez isso. A maioria quer ser médico, engenheiro, professor... Parece que na hora as crianças ficam muito traumatizadas, mas depois... elas têm o olhar triste, mas ficam brincando no campo, entre elas, e têm um sonho, isso que me chamou muito a atenção, (...) por mais que tenham o olhar triste, conseguem achar uma felicidade ali. Mas quando elas saem de Mossul é muito triste de ver, porque passaram fome, perderam familiares, amigos, e no final agora, passaram uma semana comendo pão e bebendo água suja, é terrível", observa João.

Apesar de ter trabalhado para veículos franceses e para a TV Al-Jazeera, ele tentou fazer um outro trabalho, não no front line, o que todos já estavam fazendo. "Eu pensei, vou fazer o que ninguém está fazendo: as pessoas. As pessoas seguem a vida, ainda, a vida no meio dessa destruição, os sonhos, as vontades, o que querem... então, eu fiz pouco front line".

"É impossível não ter medo"

O fotógrafo João Castellano na vila de Tal Afar, no Iraque, em dezembro de 2016 André Liohn

Sobre o medo, o fotógrafo acha que só está vivo porque teve medo: "É impossível não ter medo (...), é o instinto natural, o medo faz parte da gente, quem fala que não tem medo está mentindo ou está morto".

Tanta destruição e sofrimento não afetaram a vontade de João realizar um trabalho mais profundo com os habitantes locais. Ao contrário. Ele está estudando árabe para voltar e poder se comunicar com as pessoas: "Quero fazer esse lado mais humanizado, mas é uma dificuldade muito grande para mim não falar árabe, gosto de fazer um trabalho que humaniza as pessoas, mas para fazer isso é preciso que eu converse com elas, sabe, uma coisa é eu falar com uma pessoa olhando no olho da pessoa, uma outra coisa é a pessoa olhar no meu olho, não é?", conclui João Castellano.

 

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