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Na Austrália, um em cada cinco estudantes universitários sofre assédio sexual

Pesquisa conduzida pela Comissão dos Direitos Humanos com mais de 30 mil estudantes universitários revelou que metade dos entrevistados sofreram assédio sexual em 2016. Luciana Fraguas, correspondente da RFI em Melbourne, tem mais informações.

Luciana Fraguas, correspondente da RFI em Melbourne

A pesquisa, encomendada pela organização Universities Australia, foi feita com todas as 39 universidades do país e mostrou que estudantes estão sofrendo assédio sexual em um nível "jamais visto" nos campi universitários.

De acordo com os entrevistados, o assédio geralmente acontece  quando estudantes estão a caminho da universidade, dentro da universidade e por funcionários da própria universidade.

A pesquisa apontou que cerca de 2.100 estudantes foram assaltados  sexualmente nos últimos dois anos, enquanto que mais da metade sofreu assédio só em 2016. Desses, 21% sofreram assédio dentro da universidade.

A advogada da Comissão dos Direitos Humanos e pela Descriminação Sexual, Kate Jenkins, disse que o nível de assédio está ocorrendo em níveis “inaceitáveis".

"Para colocar isso em contexto, em uma sala de aula com cem estudantes, pelo menos um ou dois, foram assediados sexualmente nos últimos dois anos,” disse Kate.

Segundo ela, uma mulher contou que foi estuprada por um estudante veterano num acampamento organizado pela universidade. Ela depois ouviu que o mesmo estudante tinha estuprado outras mulheres em acampamentos semelhantes. A estudante disse que nenhuma providência foi tomada e que sua estória foi questionada.  

Kate Jenkins disse que ouviu o mesmo relato inúmeras vezes e que quando as estudantes reclamavam para o pessoal da administração, a resposta era sempre a mesma: de dúvida.  

Uma outra vítima disse que quando denunciou assédio sexual para o seu supervisor ele disse para ela encarar isso como um elogio.  

Dormitórios universitários

A pesquisa revelou que o risco de sofrer assalto ou assédio sexual é quatro vezes maior nos dormitórios ou alojamentos estudantis.

A pesquisa mostrou também que estudantes da pós graduação são mais suscetíveis a sofrer abuso por um funcionário da universidade e não por um colega ou estudante.

E um dado assustador: apesar de décadas de denúncias de assalto sexual nas universidades australianas, muitas vítimas não sabiam qual era o processo para reportar o próprio assalto: cerca de 87% das vítimas não apresentaram uma reclamação formal.

Estratégias de combate

Um plano nacional para combater o assalto e assédio sexual foi lançado e os reitores disseram que vão agir e implementar as sua próprias mudanças nas suas universidades.  

Uma investigação mais detalhada das acomodações universitárias, onde a situação é mais preocupante, será conduzida pela Comissão dos Direitos Humanos.

Um código de conduta também será publicado. E treinamento será oferecido aos funcionários. O objetivo é mudar a cultura dessas instituições e a resposta dada às vítimas que denunciam abuso ou estupro sexual no campus.

O ministro da educação, Simon Birmingham, disse que escreveu a cada reitor e que espera uma resposta de cada uma das universidades aos resultados apresentados pela pesquisa.  

Ações disciplinares

O relatório da Comissão dos Direitos Humanos faz sugestões sobre ações disciplinares. Mas estudantes e ativistas de organizações pelo fim do estupro nos campus universitários disseram que as medidas de treinamento e plano de ação não vão fazer diferença se os agressores não forem punidos e denunciados.  

Nina Funnell, da organização End Rape on Campus, disse que o silêncio das universidades e a total falta de ação disciplinar mostra que as vítimas não tiveram suas queixas ouvidas e que as universidades são complacentes com esse tipo de comportamento.

Em fevereiro desse ano, por exemplo, as universidades foram acusadas de acobertar assaltos sexuais depois de ter sido revelado que apenas seis agressores foram expulsos apesar das mais de 500 denúncias formais recebidas.

Os resultados dessa pesquisa devem ter um impacto significativo no terceiro maior produto de exportação australiano: o dos estudantes internacionais, avaliado em 20 bilhões de dólares australianos ou 13 bilhões de euros.

Os reitores disseram também que vão conduzir uma pesquisa independente para medir os resultados das mudanças que serão feitas daqui pra frente.

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