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Curdos Curdistão Independência Referendo Iraque

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Iraque exige controle de fronteiras do Curdistão após referendo

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Os curdos-iraquianos celebraram até a madrugada a realização do referendo sobre a independência da região autônoma do norte do Iraque. REUTERS/Ahmed Jadallah

O Curdistão iraquiano espera nesta terça-feira (26) um "sim" em massa da população no referendo sobre sua independência, realizado na segunda-feira (25), mas o primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, deu um ultimato de 72 horas às autoridades da região autônoma para que entreguem a Bagdá o controle dos aeroportos e fronteiras curdos.


"O governo decidiu proibir os voos internacionais a partir de e para o Curdistão dentro de três dias, caso os aeroportos não forem entregues ao governo central", afirmou à imprensa. Dois aeroportos operam no Curdistão, nas duas principais cidades, Erbil e Solimaina. Além da companhia aérea iraquiana, várias companhias aéreas internacionais, incluindo iranianas, turcas, jordanianas e alemãs, operam vôos regulares na região.

“Não abandonaremos a unidade e a soberania do Iraque porque estes são um dever nacional e uma vontade constitucional ", declarou aindz al Abadi. "O governo [iraquiano] irá impor a sua autoridade, de acordo com a Constituição. Continuamos envolvidos nas negociações, mas não negociaremos com base no referendo", completou.

A votação pela independência da região autônoma do Curdistão, no norte do Iraque, foi promovida pelo presidente curdo, Massoud Barzani. A região inclui as províncias de Erbil, Solimaina e Duhok, assim como zonas que os curdos disputam com o governo central iraquiano.

Votação massiva pelo “sim”

O resultado deve ser anunciado nesta terça-feira (26), embora as expectativas não deixem dúvidas: a maioria dos 5,3 milhões de inscritos são a favor da independência. Barzani esclareceu, contudo, que o referendo não levará a uma declaração de independência imediata, mas que marcará o início de "discussões sérias" com Bagdá para resolver os contenciosos.

Mais de 3,3 milhões de pessoas, 72% dos eleitores, votaram, segundo o porta-voz da Comissão Eleitoral, Sherwan Zarar. Diante da situação, o Parlamento de Bagdá votou uma resolução "exigindo que o comandante em chefe do Exército (o primeiro-ministro Haider al-Abadi) enviasse forças para todas as áreas" controladas pelos curdos após a invasão americana de 2003 e a queda do ditador Saddam Hussein. Constitucionalmente, o governo é obrigado a acatar esta decisão.

As áreas em disputa estão localizadas fora da região autônoma do Curdistão: a rica província petrolífera de Kirkuk e setores de Nínive (norte), Dyala e Saladin (ao norte de Bagdá). A maioria destas áreas foram conquistadas pelos combatentes curdos peshmergas em 2014, aproveitando-se do caos causado pela ofensiva do grupo extremista Estado Islâmico (EI).

Represálias dos vizinhos

Países vizinhos como Turquia e Irã, preocupados se suas minorias curdas seguirão o mesmo exemplo, também ameaçaram com represálias. A pedido do Iraque, o Irã proibiu os voos para o Curdistão iraquiano. Na segunda-feira, o país anunciou o próximo fechamento das fronteiras terrestres com o Curdistão, ainda sem concretizar.

Os Estados Unidos advertiram que um referendo de independência "aumentará a instabilidade" na região. "Os Estados Unidos estão profundamente desapontados com o fato de o governo regional do Curdistão ter decidido conduzir hoje um referendo unilateral sobre a independência, inclusive em áreas fora da região do Curdistão do Iraque", disse a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, em um comunicado.

"O relacionamento histórico dos Estados Unidos com o povo da região do Curdistão iraquiano não mudará com o referendo não-vinculante de hoje, mas acreditamos que este passo aumentará a instabilidade e dificuldades para a região do Curdistão e seu povo".

Em Nova York, o secretário-geral da ONU, António Guterres, se declarou "preocupado" com o risco de desestabilização e fez um chamado ao "diálogo e aos compromissos". Divididos entre Iraque, Síria, Irã e Turquia, os curdos nunca aceitaram o tratado de Lausanne de 1923, o qual os deixou sem um Estado independente.