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"O antissemitismo sempre existirá, mas há progressos", avalia brasileiro no museu do Holocausto

O historiador brasileiro Avraham Milgram trabalha há 37 dos seus 67 anos no museu do Holocausto, em Jerusalém, onde se dedica à memória dos seis milhões de judeus que foram assassinados pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Daniela Kresch, correspondente da RFI Brasil em Jerusalém.

Desde 1980 no Yad Vashem, o nome oficial em hebraico do Museu do Holocausto, Milgram atua em diversos setores da instituição. Começou no setor de educação, mas logo passou a ter mais responsabilidade. Dirigiu, por exemplo, uma equipe de historiadores que montou a narrativa histórica da nova sede do Museu, inaugurada em 2005.

Nascido na Argentina, mas criado em Curitiba, Milgram imigrou para Israel em 1973, onde descobriu que o Holocausto não era apenas uma questão pessoal, uma tragédia que vitimizou boa parte de sua família.

“O assunto do Holocausto é uma coisa que tem mais a ver com o aspecto emocional, a história familiar, de uma família que foi quase toda ela exterminada na Polônia, como muitos judeus ashkenazim, eu diria. O interesse acadêmico começou na Univerdidade Hebraica em 1976. Aí eu percebi, entendi que o Holocausto não é apenas uma carga emocional que descendentes dos judeus assassinados carregam na consciência, mas sim uma disciplina histórica, uma disciplina como qualquer outra”, afirma Milgram.

Portugal e os judeus

Como tese de doutorado, Milgram decidiu se voltar para a relação entre Portugal e os judeus do país. O que mais chamou a atenção do historiador foi o fato de que, em Portugal, nas primeiras décadas do século XX, não havia o antissemitismo institucionalizado de outros países europeus.

No livro, ele conta como, em 1773, o Marquês de Pombal queimou 40 mil registros com listas de cristãos-novos, judeus que foram ordenados a se converter em 1496. Essas listas ajudavam a manter o preconceito contra os conversos em Portugal, mantido por séculos também pela Inquisição.

Milgram escreve que Pombal, em seu intuito de modernizar Portugal e criar uma sociedade mais integrada e igualitária, queimou esses registros, o que debilitou a Inquisição e iniciou o processo de volta dos judeus ao país.

O resultado de seus estudos foi o livro “Portugal, Salazar e os judeus”, publicado em 2010, no qual analisa o comportamento do ditador português António Salazar em relação aos judeus durante a Segunda Guerra.

“A atitude de Portugal em relação aos judeus foi uma atitude ambivalente. Ou seja, permitiu a passagem de judeus por Portugal, mas os impediu de permanecer no país. Ou seja, Portugal permitia que o judeu perseguido em algum outro país, mas que tivesse um visto de entrada para o Brasil ou os Estados Unidos, por exemplo, pudesse transitar por Portugal, mas não aqueles que não tinham visto algum", explica Milgram.

Os justos do Brasil

O historiador brasileiro conta que, até hoje, dois brasileiros e quatro portugueses foram reconhecidos como “justos entre as nações”, títulos outorgados pelo museu Yad Vashem a cerca de 26 mil pessoas que ajudaram, de uma forma ou de outra, os judeus durante o Holocausto.

O cônsul português Aristides de Souza Mendes é o mais conhecido. Como cônsul-geral na cidade francesa de Bordeaux, ele concedeu milhares de vistos, em 1940, a fugitivos dos nazistas.

Entre os brasileiros está o ex-embaixador brasileiro na França Luiz Martins de Souza Dantas e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, assistente e mulher do escritor e vice-cônsul Guimarães Rosa. Trabalhando na sessão de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, Aracy emitiu vistos, assinados por Guimarães Rosa, ignorando as leis de Getúlio Vargas que restringiam a entrada de judeus no Brasil.

Para Avraham Milgram, ainda é possível que outras pessoas sejam reconhecidas, no futuro.

“Eu acredito que ainda possa se encontrar e reconhecer um e outro diplomata, e não só brasileiro, mas de outros países também. Eventualmente, pode ocorrer que haja mais um ou dois candidatos de cônsules que tiveram atitudes pró-judeus e que atuaram contra as diretrizes dos decretos-leis que foram emitidos no Brasil a partir de 1937 para resrtingir e, depois de 41, impedir a entrada de judeus no Brasil”, diz o historiador.

Novas facetas do antissemitismo

Milgram não demonstra surpresa diante da retomada do antissemitismo no Ocidente e a eleição para o parlamento alemão de um partido de extrema-direita que flerta com o neonazismo.

Ele define o antissemitismo como um “componente integral da cultura ocidental cristã”, sendo mais latente em certos países e menos, em outros. Mas aponta progressos em relação a essa questão, afirmando que os judeus estão, atualmente, mais integrados do que nunca nas sociedades do Ocidente.

“A impressão que eu tenho é que o antissemitismo, nas suas várias formas, ele continuará existindo. Mas, ao mesmo tempo, é preciso dizer que houve grandes progressos na luta contra o antissemismo. Os judeus passaram por um processo de integração. Eles são cidadãos que usufruem de igualdade de direitos. Você conseguiria imaginar, no século XIX, um judeu que seria candidato a presidente ou que tivesse posições sociais, econômicas e jurídicas no mundo ocidental? Não. Ou seja, o quadro não é só negativo”, acredita.

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