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Resolução da ONU que levou à criação de Israel completa 70 anos, sem paz

Por RFI

A ONU lembrou nesta terça-feira (28), em Nova York, os 70 anos da histórica votação que possibilitou a criação do Estado de Israel. A sessão que aprovou a resolução de partilha da Palestina, em 29 de novembro 1947, foi presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha. Ela mudou os rumos do Oriente Médio, mas ao invés da paz esperada, trouxe conflitos que duram até hoje.

Daniela Kresh, correspondente da RFI em Israel

A Resolução 181 da ONU de Partilha da Palestina, foi aprovada há exatos 70 anos em uma sessão histórica. O texto previa a criação de dois Estados, um árabe e um judeu, na região da Palestina histórica, que, naquele momento, estava sob controle dos britânicos.

A liderança judaica aceitou a divisão proposta e proclamou, seis meses depois, em 14 de maio de 1948, a criação do Estado de Israel. Mas a liderança árabe – tanto dos que moravam na Palestina quanto em países vizinhos – não aceitou e sete países árabes declararam guerra contra Israel assim que o país proclamou sua independência.

O conflito, entre 1948 e 1949, causou 20 mil mortes e levou à uma migração em massa: cerca de 700 mil palestinos deixaram ou foram expulsos de Israel. A maioria se tornou refugiada em países vizinhos. E cerca de 800 mil judeus foram expulsos de países árabes, migrando para Israel.

Desde então, houve diversas guerras na região, como a dos Seis Dias, em 1967, e a do Yom Kippur, em 1973. Quer dizer: a ideia da resolução da ONU era colocar um ponto final na disputa de dois povos por um mesmo território, mas o conflito continua até hoje.

Reconstituição da sessão de 1947

A reconstituição da sessão histórica de 1947 não aconteceu na famosa sede atual da ONU, desenhada pelo brasileiro Oscar Niemeyer. Ela foi realizada no Museu do Queens, que abrigou a Assembleia da ONU até 1950. A Organização das Nações Unidas tinha sido criada há apenas dois anos e essa resolução foi uma das primeiras a serem votadas. Na época, a ONU só contava com 57 países-membros.

A moção foi aprovada por 33 votos contra 13. Outros dez países se abstiveram e um não votou. Os países latinos foram o maior bloco em favor da moção, com 13 dos 33 votos pela aprovação. O Brasil votou a favor, mas Argentina e México se abstiveram. É interessante notar que Venezuela e Bolívia, que votaram a favor, hoje não têm relações diplomáticas com Israel.

Nesta terça-feira, estavam presentes na comemoração em Nova York representantes de 60 países, entre eles Egito e Jordânia, que assinaram acordos de paz com Israel desde então.

Participação brasileira

O Brasil teve papel importante na votação da ONU que aprovou a partilha da Palestina. Quem presidiu a sessão de 1947 foi o ex-ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha. O chanceler brasileiro não só presidiu, como adiou a votação por três dias para dar chance à liderança judaica de angariar votos.

Aranha é muito festejado em Israel, juntamente com outros diplomatas latinos como Jorge García Granados, da Guatemala, e Enrique Fabregat, do Uruguai, que trabalharam nos bastidores pela aprovação da resolução.

O martelo original que o brasileiro usou para manter a calma durante a sessão foi levado de Israel para Nova York para fazer parte da reconstituição. Esse martelo fica no museu Oswaldo Aranha, no Kibutz Bror Chail, um vilarejo comunitário com muitos brasileiros, no sul de Israel.

A data da votação histórica também é festejada em Israel. Nesta quarta-feira (29), a sessão da ONU será lembrada nesse museu, com presença de autoridades locais e do embaixador do Brasil em Israel.

Discurso americano em apoio a Israel

O vice-presidente americano, Mike Pence, participou da sessão comemorativa de ontem e fez um discurso em apoio a Israel na ONU. Pence refez a promessa do governo Donald Trump de transferir a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém. Essa medida seria polêmica porque a ONU não considera Jerusalém como capital de Israel.

A resolução de Partilha da Palestina, de 70 anos atrás, já estabelecia que as cidades sagradas de Jerusalém e Belém seriam internacionalizadas, sem pertencer a nenhum dos países que deveriam ser criados. Elas teriam um governo neutro.

Mas, hoje, Jerusalém está sob controle de Israel – que a considera sua capital – e Belém, sob controle dos palestinos. A verdade é que, sete décadas depois, a disputa territorial continua ditando a realidade entre israelenses e palestinos, influenciando na geopolítica do Oriente Médio e do mundo e emperrando as negociações de paz.

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