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Ao mexer com Jerusalém, Trump brincou com fogo num paiol de de fervores espirituais

Por Alfredo Valladão

Jerusalém é uma emoção avassaladora. Um nó de devoções religiosas sem freios. A cidade milenar é santa para as três grandes religiões monoteístas. Nela, cada uma encontra os seus símbolos mais arraigados, suas identidades mais fechadas e intolerantes. Muçulmanos, judeus e cristãos – com suas diversas denominações ou seitas – se cruzam numa mistura de indiferença e hostilidade. Para o peregrino ou o turista de passagem, a atmosfera é sufocante, apesar da imensa beleza dessa urbe única.

Mexer com Jerusalém é brincar com fogo dentro de um enorme paiol de fervores espirituais, aparentados e incompatíveis. Tudo pode acontecer quando uma tal carga religiosa se mistura com reivindicações nacionais e territoriais. E em geral, acontece.
Foi o que acaba de fazer Donald Trump. O magnata-presidente declarou que os Estados Unidos reconheciam Jerusalém como capital oficial do Estado de Israel, à revelia do direito internacional, de todas as resoluções da ONU, da opinião dos seus ministros da Defesa e das Relações Exteriores e também da simples prudência.

O conflito entre palestinos e israelenses vem se arrastando há meio século e volta e meia ameaça incendiar o Oriente Médio inteiro. Nas ditas “negociações de paz”, o estatuto final de Jerusalém é um das questões mais intricadas. Há anos que os partidários de uma solução negociada sabem que a solução são dois Estados soberanos, vivendo em paz lado a lado, cada um com um pedaço da cidade santa como capital (Oeste para Israel, Leste para a Palestina).

Mas nos mundos árabe, judeu ou cristão fundamentalista, nada provoca mais exaltação do que o futuro desse nó religioso. O resto do mundo sempre tentou não jogar lenha na fogueira. Trump simplesmente acendeu o estopim.

Governos árabes sunitas estão mais preocupados com o Irã do que com a causa palestina

Paradoxalmente, a explosão pode levar tempo. Os protestos de rua nos territórios palestinos da Cisjordânia e Gaza já começaram a refluir. Os governos dos países muçulmanos toleraram as inevitáveis manifestações simbólicas – e pontuais – contra as embaixadas americanas. Mas não vão durar. Vai sobrar só a violência individual dos mais exaltados e o presente dado à propaganda dos grupos terroristas islamitas para recrutar novos adeptos.

Na verdade, Donald Trump quis dar um osso a roer para a sua base eleitoral cristã radical. Mas aproveitou essa jogada de política interna para balançar o coreto. O magnata imobiliário acha que uma boa negociação só acontece quando começa com brutalidade. Chegou a hora de virar a mesa para obrigar todo mundo a negociar de novo.

O cálculo é estabanado e perigoso. É provável que o tiro saia pela culatra. Mas não há dúvida de que os governos árabes sunitas estão muito mais preocupados com poder crescente do Irã xiita na região do que com a causa palestina. E que, contra Teerã, precisam não só manter boas relações com os Estados Unidos, mas também com o poderio político e militar de Israel.

Os representantes do Estado palestino continuam divididos e as populações palestinas da Cisjordânia estão exaustas e desmoralizadas depois de anos de enfrentamentos sem resultado. São poucos os que ainda acreditam que a solução de “dois Estados” seja viável. As cidades e terras palestinas viraram uma colcha de retalhos separados pela presença de centenas de milhares de colonos israelenses. Um Estado independente e factível tornou-se quase impossível.

Alguns já pensam num Estado só. Uma democracia, onde populações judias e árabes teriam os mesmo direitos e deveres. Mas essa solução representaria o fim de Israel como Estado judeu. Portanto, também não tem a mínima chance de acontecer. Falar de “processo de paz” hoje, não faz sentido.

Há muito tempo que esse “processo” não processa nada. Jogar o trunfo de Jerusalém na mesa é visto como um jeito de mudar esse jogo sem futuro. Só que conflitos históricos, carregados de tantas tragédias e tantos extremismos religiosos, não são partidas de pôquer. Trump estourou uma bomba numa região que não precisava mais de tanto.

Alfredo Valladão, da Rádio França Internacional para a Agência Radioweb  

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